O Brasil precisa de livros

O atual momento político brasileiro, manchado pela corrupção, está longe de ser um filho do século XXI. Grandes estudiosos como Sérgio Buarque de Holanda, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Raymundo Faoro, Kimberly Ann Elliott, Matthew Taylor e Timothy Power, já nos ofereceram subsídios suficientes para compreender que os atos corruptivos nos circundam desde os tempos coloniais. Aliás, corromper é uma lástima que acompanha os seres humanos muito antes dos portugueses desembarcarem em terras tupiniquins.

Diversos intelectuais constantemente apresentam propostas para combater esse mal que inunda boa parte do planeta. Contudo, não são muitos os que afirmam enxergar na literatura a possibilidade de modificar esse quadro político lastimável de forma mais efetiva, principalmente porque age mais no aspecto individual e isso poder variar de pessoa para pessoa.

A mais recente pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, divulgada no primeiro trimestre deste ano, revela que o público leitor brasileiro aumentou em relação ao último estudo realizado em 2011.

Segundo os dados de 2015, 56% dos brasileiros, ou seja, 104,7 milhões são considerados leitores (neste caso, os habitantes que tenham lido ao menos um livro nos últimos três meses). Embora a bíblia e as obras religiosas sejam a preferência nacional, as escolhas posteriores é que chamam a atenção: contos e romances. E neles pode residir a chave para que a literatura venha a contribuir em direção a uma mudança.

Através também das ficções, alimentadas pela realidade que as envolve, é possível que o leitor seja levado a questionar o funcionamento da sua sociedade e as mazelas existentes, passando por uma reflexão aprofundada de sua comunidade e de seu próprio modo de vida.

Muitas vezes, é através das tramas e de suas quimeras que o indivíduo reconhece suas fragilidades e incorreções, conseguindo ponderar que atitudes como essas podem contribuir para a degradação de seu contexto, ainda que de uma forma mínima. Trocando em miúdos, não é possível reclamar da corrupção, se você sempre busca o famoso “jeitinho brasileiro” para escapar de uma repreensão aos olhos da lei.

De fato, o Brasil precisa de livros, literatura e, mais do que isso, precisa de leitores comprometidos em transformar a nossa realidade, tornando-se agentes de um processo de mudança que passa primeiro pelas ações cotidianas dos cidadãos, que, posteriormente, podem resultar em modificações mais agudas para os caminhos políticos de nosso país.

Obviamente, construir uma nação de leitores não levará por si só à diminuição da corrupção no Brasil ou resolver outros grandes problemas, mas uma sociedade leitora é mais questionadora, reflexiva e debatedora.

Na prática, isso pode resultar em uma mudança no perfil dos políticos que serão eleitos desde o âmbito municipal até o federal, inclusive uma transformação nos padrões das aclamadas promessas de campanha que nunca se concretizam, principalmente porque a imensa maioria dos eleitores ainda não cobra e rapidamente se esquece dos compromissos estabelecidos para a conquista de votos.

Ensaio literário e a intervenção na América Hispânica

Não é novidade nenhuma que a literatura pode contribuir imensamente para o debate das questões de grande importância para o presente e futuro das sociedades nas áreas como a cultura, economia, política e social.

Na América Latina, principalmente na primeira metade do século XX, muitos literatos foram convocados para as discussões intelectuais, intervindo diretamente em suas comunidades através de obras engajadas, propondo soluções para os problemas pelos quais enfrentavam conjuntamente.

Ainda que muitos gêneros literários tenham participado das contendas sociais, o ensaio, principalmente na América Hispânica, ganhou destaque e respeito da intelectualidade e sociedade civil como uma porta para proposição de soluções e elucidações, diferentemente do Brasil, onde até hoje este gênero é visto com maus olhos pelo meio acadêmico, acusado de não conter um rigor científico e de não propiciar uma colaboração efetiva.

Embora tenhamos figuras importantes como Manuel Bonfim, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, etc.

Historicamente o gênero foi “inaugurado” pelo importante escritor uruguaio José Henrique Rodó, com o ensaio Ariel, em 1900. Seu texto era voltado diretamente aos jovens das nações hispano-americanas, recomendando uma cultura de los sentimientos estéticos frente ao perigoso utilitarismo e nordomanía.

Ao longo da obra Rodó usou personagens de William Shakespeare, do livro A Tempestade, são eles: Calibán, Próspero e Ariel. Ressaltando que no período de emancipação das nações latino-americanas, iniciando-se por volta de 1810, alguns ensaios incipientes já circulavam pela região.

Muitas são as definições para o ensaio, inclusive algumas subdivisões como ensaio literário, acadêmico, periódico. Especificamente sobre o literário, tem um caráter dialogante com seu leitor e volta-se totalmente para a realidade presente.

Dentro da perspectiva da literatura engajada, que nos interessa aqui, Benoît Denis indica que o ensaio não tem a intensão de alcançar um cientificismo, é marcado por uma retórica do eu subjetivo, explorando a vivência do escritor enquanto sujeito social.

Apenas para conhecimento, outros importantes escritores que fizeram uso do ensaio na América Hispânica foram Andrés Bello, Domingo Faustino Sarmiento, José Martí, Octavio Paz, Ángel Rama e José Carlos Mariátegui. Já na geração do boom, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, José Donoso, José Lezama Lima, Jorge Amado, Augusto Roa Bastos e Mario Vargas Llosa.

Dentro do panorama apresentado em muitos dos textos da sessão Literatura e História, sobre a importância da literatura para além do entretenimento, o ensaio é mais um importante instrumento, dentre tantos outros, para o entendimento das sociedades e seus acontecimentos nas nações da América Latina, contribuindo para a reflexão e formação de opinião dos leitores, colaborando para a construção dos indivíduos enquanto cidadãos.