Entre a consciência histórica e a amnésia coletiva

A grave tragédia recente do incêndio no Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, resgatou o debate – já há muito tempo esquecido pela mídia nacional e por nós mesmos – sobre a importância em se preservar a história brasileira e em conhecê-la.

Em meio à preparação para lecionar Teoria e Historiografia na universidade, vinha pensando muito sobre como transmitir de forma simples aos meus alunos a relevância de um povo ou indivíduo conhecer o seu passado na tentativa de entender quem de fato ele é, empenhando-se em compreender todo o caminho percorrido até aqui.

Para além da tão famosa frase: “conhecer os erros do passado para não repeti-los” (próximo ao que o espanhol George Santayana escreveu no início do século XX da necessidade de se conhecer o passado para não reproduzi-lo), desconhecer a trajetória de milhares de populações espalhadas pelo planeta e como elas se estruturaram pode resultar em uma desconexão com as raízes e uma despreocupação com tudo o que já foi realizado para que hoje tivéssemos nossa atual configuração social.

Reconhecer o que efetivamente é positivo e os grandes elementos negativos que ainda compõem a nossa vida, passa pela percepção do que a humanidade já produziu. E é o historiador quem se encarrega de acessar essa produção e analisá-la em conjunto com outras áreas do saber.

Dentro desse panorama, o primeiro aspecto é a valorização da História enquanto ciência que se dedica a conhecer as ações dos homens ao longo do tempo. Posteriormente, é reconhecer que o seu papel não é exatamente apostolar, mas apresentar as várias compreensões dos fatos históricos após indaga-los, investiga-los. Essas compreensões são frutos de contextos específicos e de aspectos particulares de quem as produziu. E é nessa diversidade que reside a magnitude da História.

Porém, é preciso enfatizar que após anos de divergências e oposições, as garantias de vida e à liberdade, o direito ao trabalho e à educação, à liberdade de opinião e de expressão, dentre tantos outros, não podem ser simplesmente destruídos e não mais garantidos (ou cessar os enfrentamentos para que toda a humanidade tenha acesso a eles).

As perguntas que fazemos ao passado são fruto de nossas inquietações presentes. Interpretar e absorver esse passado nos leva a compor o quadro atual de nosso mundo, reconhecendo as diversas manifestações humanas que contribuíram ou não na tentativa de uma composição menos aflitiva e mais pacífica. Aproximando-nos de nossos antepassados, de suas imperfeições e exatidões, reconhecendo-nos neles.

Por isso, também, a importância de se registrar nossos passos, apresentar perspectivas e desenvolver análises sérias e científicas. Visando disponibilizar material suficiente para conhecermos nossa caminhada até chegar ao presente e entender porque chegamos até ele desse modo e não de outro.

Porém, o grande problema reside em, no futuro, saber reconhecer a importância desse material do passado. Se isso não acontecer, de nada adianta os registros. Se uma sociedade não souber reconhecer ou, então, não dispor de meios que ajudem nesse reconhecimento da relevância histórica, as consequências podem ser tenebrosas. Se plantarmos algo ruim aqui, neste exato momento, a colheita futura pode não vingar. Ou, em uma hipótese catastrófica, colheremos algo extremamente ruim.

Andes: se as montanhas pudessem falar…

“Se as montanhas pudessem falar, elas nos contariam uma história…” a frase anterior, adaptada, pertence à letra de If a mountain could talk da banda alemã Helloween. Ao longo da composição, escrita por Markus Grosskopf, é possível depreender a relação entre os seres humanos e a natureza, o quão irresponsável tratamos a terra e como reagiriam as montanhas e os oceanos ao nosso comportamento, em inúmeras vezes, irracional.

A canção ainda traz sentenças como “por lucro vendemos nossas almas”, “nós semeamos desastre, a confusão está completa” e “os recursos logo serão consumidos”. E foram justamente essas fortes palavras que levaram a um pensamento: E se os Andes pudessem falar? Que histórias contariam?

Obviamente, em uma pequena reflexão como esta, a ideia não é propor o que Fernand Braudel fez de forma virtuosa com o mar Mediterrâneo, ao abordar um conjunto de narrativas da história espanhola do século XVI, estabelecendo um novo paradigma à ciência histórica, mas sondar de forma despretensiosa alguns elementos que compõem o enredo das ações dos homens ao longo do tempo na região sul-americana.

Maior cordilheira do mundo em comprimento, a denominação “Andes” contém diversos significados. Entre eles, uma origem aymara espanholizada referindo-se a “montanha que se ilumina”. Há também uma relação com a palavra quíchua Anti, significando “crista elevada”. Por fim, uma acepção derivada também da etimologia quíchua, Antisuyu, uma das quatro partes do império dos incas, com o vocábulo Suyu sendo uma referência à cadeia montanhosa em questão.

A própria origem do nome ajuda a entender um pouco das histórias que, muito provavelmente, os Andes contariam. Sem uma exatidão, a chegada dos primeiros homens vindos de terras distantes, quem sabe há 50 mil anos, vagarosamente, seria o ponto de partida. Navegando em canoas primitivas ou andando desde Behring, foram chegando em face a dimensão colossal daquela barreira natural.

Aos poucos foram se organizando. E o que não era nomeado, passou a ser. Carao, Chavín, Valdívia, Moche, Tiwanaku, Nazca, Chachapoyas, Wari, culturas arqueológicas floresceram, próximas ou distantes, mas sempre visíveis aos olhos das montanhas. Produzindo cerâmicas, aquedutos, têxteis e geoglifos, relacionando-se com suas divindades, guerreando e dominando, nada escapou às cordilheiras.

Garantiam a agricultura nas menores altitudes, forneciam água do degelo de suas geleiras e o tempo – senhor de tudo – foi passando. As riquezas da serrania eram eduzidas aos montes. Brilhando ou não, aguçavam os sentimentos mais vis nas populações ao redor.

Chimús, Muíscas e Incas, do extremo norte ao sul, frutificaram, evoluíram. Resultado de uma miríade de civilizações andinas, o povo Tawantinsuyu tornou-se o maior e mais desenvolvido império já visto por aquelas bandas. Porém, à procura da região da cadeia irmã, novos habitantes surgiram. Toparam com os titãs da parte sul que viriam a chamar de América. E o que era mito e antes homem – Manoa del Dorado – passou a ser fantasiado como localidade e transfigurou-se em El Dorado.

A partir daí, a exploração que já existia, radicalizou-se. Porém, enquanto interlocutor, essa é uma história a ser contada em uma outra ocasião