De cerro a cero, Carlos Franz

Dando continuidade ao projeto Nueva narrativa chilena de los noventa, trabalhando grandes escritores que constituíram essa geração, Carlos Franz é o escritor da vez. Nascido em Genebra, na Suíça, em 1959, o escritor se mudou para o Chile já no início dos anos de 1970, graças à profissão de seu pai, Carlos Franz Núñez, diplomata.

Assim como boa parte dos literatos da nova narrativa, Franz também estudou na Universidad de Chile, formando-se em Direito. Após se tornar advogado, o jovem suíço resolveu abandonar a carreira e ser escritor, participando, no início da década de 1980 da famosa oficina literária de José Donoso. Viveu ainda na Alemanha, Inglaterra e Espanha, até retornar em 2012 para cuidar de sua filha Serena.

Desde então, iniciou uma carreira vigorosa e muito premiada. Recebendo o Premio Latinoamericano de Novela CICLA de 1988, Premio Municipal de Santiago de 2002, Premio del Consejo Nacional del Libro de Chile em 2005, Premio Internacional de Novela La Nación-Sudamericana, tornando-se membro da Academia Chilena de la Lengua em 2013.

Muitas destas premiações tiveram como culpadas as obras Santiago cero, romance de 1988 e La muralla enterrada. Santiago, ciudad imaginaria, ensaio publicado em 2001. Além disso, El desierto, Almuerzo de vampiros e La prisionera, livros dos anos 2000, também ganharam muito destaque na imprensa internacional.

Em meio a muitas obras, Santiago Cero, seu romance de estreia, chama atenção como algo marcante, não entanto sem causar barulho por não querer se apresentar como algo que está à frente de seu tempo, mas sem dúvidas algo que não caiu nas mesmices de outros pares de seu tempo no Chile.

Explorando a quadra da vida em que se é jovem, Franz nos faz conhecer uma história cotidiana da juventude santiaguina durante a ditadura militar no Chile.

Narrada em segunda pessoa, revela-nos sentimentos de aferrolhamento e angústia presentes na vida dos chilenos, naquele momento, mas com ênfase naqueles que estavam dispostos a se arriscar um pouco mais, não que isso fosse muito.

O contexto de terror que habita o pano de fundo do enredo, aos poucos, parece elevar aquilo que há de mais sórdido nos seres humanos, assim como ao personagem principal que não recebe um nome em específico, evidenciando uma generalidade profunda, de algo que atinge a todos.

Alguns críticos literários habitualmente descrevem a realidade do enredo como algo alienado, tomando como referência, talvez, a realidade vívida, da experiência ditatorial que muitos enfrentaram em vida.

Entretanto, a realidade literária não é e não pode ser àquela que encaramos todos os dias, mas sim algo que revela um outro aspecto que nós, já deturpados devido os acontecimentos ao nosso redor, não conseguimos enxergar.

A realidade da trama ludibria para nos contar uma verdade de um dado momento histórico e nos alertar para as mazelas sociais.

Concordo com esta atmosfera alienada, desde que a palavra signifique encanto ou extasia, pois creio que dentro desta alienação ainda há sinal de “vida” perante toda a opressão imposta sobre a sociedade.

Embora, seja bem verdade, que esse encanto pode ser àquele que deturpa a interpretação dos seres que vivem sob um regime ditatorial e tornando-os anêmicos em relação a sua realidade.

Carlos Franz consegue magistralmente e, de forma bem direta, nos revelar a sensação de reclusão, cerrado, que sufoca a muitos e cansa a todos. Utilizando-se, para isso, de um espírito de consciência — se assim posso dizer — que enquanto nos apresenta a trama, esforça-se para tentar entender tudo aquilo que esta se passando.

Morir en Berlín o Santiago?

Escritor do célebre livro Morir en Berlín e participante da Nueva Narrativa Chilena de 1990, embora tenha começado a publicar textos desde os anos de 1970, Carlos Cerda nasceu em Santiago, capital do Chile, no ano de 1942 e faleceu em outubro de 2001.

Graduou-se em Filosofia pela Universidad de Chile e anos depois, doutorou-se na Universidad Humboldt de Berlin, na Alemanha, para onde se exilou, fugindo do regime militar chileno, instituído com o golpe de 1973. Antes, porém, permaneceu alguns anos na Colômbia.

Sua estadia em terras alemãs, no lado oriental, foi muito frutífera para sua carreira como literato e também dramaturgo. Lá, criou personagens e situações intimamente ligadas ao país europeu e tornou-se um escritor reconhecido mundialmente.

Em 1993, após voltar ao Chile, Cerda escreveu o romance Morir en Berlín, o mais elogiado livro em toda sua longa carreira de ensaios, peças teatrais e ficções.

A experiência do exílio influenciou diretamente a trama da obra. Os personagens, em sua maioria, são chilenos que viviam na Alemanha e dividiam seus anseios, conflitos e histórias em uma terra de cotidianos estranhamentos, por suas diferenças culturais como a língua e comida, por exemplo.

Comunista, Cerda era contra o regime militar e, sob um outro ponto de vista, podemos entender seu romance como uma epígrafe póstuma de duplo sentido, relacionada tanto à queda da ditadura, quanto à queda do muro de Berlim.

A vasta gama de personagens pode ser compreendida também como pluralidade de vozes que representariam diferentes partes de um contexto, portanto partindo do individual para nos revelar algo maior e coletivo.

Diferentemente do que alguns analistas costumam afirmar, o romance não é uma visão de chilenos exilados na Europa e suas opiniões sobre o contexto mundial do período (ditadura, guerra fria, etc.), mas uma visão muito particular de um escritor que passou por essa experiência e conheceu pessoas nessa mesma situação, usando seus perfis e histórias reais para criar uma ficção pautada na realidade.

Para além de destacar personagens principais, a obra manifesta personagens coletivos, como La Oficina, agência presidida por don Carlos que auxiliava os exilados chilenos, servindo aos seus interesses, mas sem se esquecer das leis da Alemanha Oriental.

Deste modo, La Oficina parece muito mais controlar e burocratizar todo o processo de ambientação dos chilenos no país europeu, do que propriamente ajudar. Permissões de entrada e saída, permissão para divorciar-se, entre outras situações, transformaram o órgão em algo controlador e invasivo, agindo diretamente na vida do exilados.

Suas vidas pareciam não ter nenhuma consideração, estavam imersas em um jogo de interesses políticos e sociais. Eram vistas apenas como uma aglomeração de estrangeiros em um gueto, suas individualidades jamais tinham voz ativa.

As dolorosas experiências retratadas no texto, como a necessidade de abandonar a luta contra a ditadura em seu país de origem, a convivência difícil e, em muitos casos, a inadaptação ao novo país, são fatos de um processo que se aproximam do luto, gerando um sentimento de remorso nos expatriados.

Esses demônios — ou seja, esses fatos do passado — se exorcizam apenas quando subtraídos da memória e colocados no papel. Retratados às claras, em um livro, podem ser enfrentados e conjurados.

No fim, já não parece haver diferença entre ambos os lados divididos pelo oceano Atlântico. Se no Chile as liberdades estavam cerceadas, na Alemanha Oriental igualmente. As quedas do regime ditatorial e do muro de Berlim finalizaram contextos, mas internamente as memórias permaneceram. Morrer em Berlim ou em Santiago, na verdade, já não fazia diferença.

A Nueva Narrativa chilena dos anos de 1990

Grupo de literatos e intelectuais chilenos que passaram a ganhar notoriedade mundial na década de 1990, a Nueva Narrativa (Nova Narrativa) trouxe à tona textos heterogêneos que romperam com a tradição do realismo mágico e da romance tradicional do século XIX.

Em poucas palavras, o Realismo mágico apoia-se em elementos de fantasia ou irreais ao desenvolver enredos perfeitamente reais e cotidianos, obteve grande destaque no século XX na América Latina, principalmente com o mexicano Gabriel García Márquez, ganhador do Prêmio Nobel em 1982.

Já o romance tradicional, ou o Nouveau roman, também desenvolvido no século XX, se contrapõe ao romance tradicional do século XIX, em relação à forma de contar e de evolucionar os textos.

O sentimento geral dos escritores é que os novos romances não precisam seguir uma regra fixa, devendo demonstrar claramente o perfil dos personagens, um enredo, um começo, um meio e um fim. Seu principal representante é o francês Alain Robbe-Grillet. Receberam também muita influência de SartreCamus.

Segundo José Leandro Urbina, se pensarmos em uma perspectiva geracional, é impossível demarcar os integrantes do grupo por seu nascimento e influência.

Logicamente, isso gera uma perspectiva heterogênea, mas apesar de toda essa diversidade em suas preocupações sobre o que seus romances deveriam representar e as variedades de espaço do universo narrativo, possuem características comuns como: aproximar-se do discurso social e logo diluí-lo na trama dos romances e contos, associando-se à características do pós-modernismo literário. A ditadura militar chilena impactou diretamente no trabalho dos literatos do grupo.

Embora não se encontre alguma pesquisa ou trabalhos literário-acadêmicos que ligue o grupo chileno às elucidações da literatura engajada, é possível discernir que o conteúdo social seria um caminho para uma análise mais aprofundada, tendo em vista que não necessariamente é preciso que os contextos sociais ou políticos sejam problematizados de forma clara.

No entanto, em muitas vezes, a preocupação volta-se mais para a apresentação de uma boa narrativa, uma literatura que dê prazer, do que propriamente focar-se em temáticas sociais, diferenciando-se um pouco dos “novos romances”. Mas tanto neste caso, quanto no caso exposto acima, uma prática não inviabiliza a outra.

Os principais nomes da Nueva Narrativa chilena são Carlos Franz, Gonzalo Contreras, Alberto Fuguet, Arturo Fontaine Talavera, Ana María del Río, Carlos Cerda e Jaime Collyer. E ao longo deste semestre, sempre que possível, o grupo literário, seus textos e autores, serão tema de nossos textos.