Escrever para tablets banalizará literatura?

Há mais de um mês o escritor Mario Vargas Llosa num debate realizado pela Biblioteca Nacional da Espanha com o jornalista espanhol Sergio Vila-Sanjuán, em homenagem aos 300 anos da instituição, afirmou na sua intervenção no ciclo “El libro como universo” que, escrever para tablets, pode resultar em uma banalização da literatura, contribuindo para que esta se torne uma futilidade.

Confesso que esperei certo tempo para “sentir” a repercussão desta afirmação e refletir sobre esse assunto, principalmente na mídia especializada e com pessoas que realmente conhecem o trabalho do escritor. Em geral, foi bem recebida, embora alguns blogs (que nem merecem ser citados) destacaram, erroneamente, que Vargas Llosa disse bobagem. Talvez porque tenham pouco contato com as reais intenções do peruano ou tenham se dedicado apenas às leituras de seus romances, sem considerar suas outras grandiosas obras em outros gêneros e seus pensamentos.

Primeiramente, mais do que questionar ou julgar o escritor, deve-se compreender que Vargas Llosa há anos, (ou, quem sabe, desde quando começou a escrever) trava uma batalha digna contra a transformação da literatura em mero entretenimento, a serviço apenas da diversão. Ela é mais que isso, ela tem responsabilidades, ou melhor, quem a escreve, e pode contribuir muito com os problemas e questionamentos de seu tempo sem perder estética.

Portanto, pode, de fato, contribuir em algo para a sociedade. Assim pensa o escritor e assim devemos levar em conta esse “contexto” para então buscar um entendimento do porquê desse temor da banalização.

Diversos veículos de comunicação noticiaram que o autor baseava seu ponto de vista no que a televisão se tornou; em suas palavras:

“Por que a televisão banalizou tanto os conteúdos, quando é um instrumento extraordinário para chegar a grandes públicos, mas foi incapaz de se transformar em um transmissor de grandes idéias, de grande arte ou literatura?”.

A televisão “não chegou a lugar algum, porque aponta ao mais baixo para chegar ao maior número de pessoas”. Embora para Vargas Llosa existam boas séries televisivas, “ler (Marcel) Proust ou (James) Joyce não é o mesmo que assistir a uma série!”.

Entretanto, mais do que se basear no que a televisão se tornou, e ele tem toda razão (basta ligar na “tv aberta” durante os domingos), o escritor carrega consigo toda a sua convicção de “escritor engajado” e toda sua crença de uma literatura muito além do entretenimento, aliás, não só a literatura mas as diversas maneiras de expressões culturais.

De forma alguma Vargas Llosa afirma que escrever para tablets, ou escrever para livros eletrônicos já é uma ação que vulgarizou, no sentido banal, a literatura. Ele apenas alerta para um temor seu; e isso é muito válido.

Muitos críticos, não só no Brasil, costumam colocar “o carro a frente dos bois” e introduzir palavras que não foram ditas ou até mesmo escandalizar sobre um assunto que é muito natural. Deveriam enxergar essa posição do escritor peruano como um alerta e um chamado para o debate de qual literatura se deseja para o futuro, no que ela se tornará.

É interessante, pois, pensar no assunto, discutir e propor saídas para escapar desta banalização, pois quer queira ou quer não, pode ocorrer; aproveitando-se assim de todas as tecnologias disponíveis e ao invés de tornar a literatura uma futilidade, torná-la mais acessível e atraente para um maior número de pessoas.

Os livros como uma necessidade primária

Se alguém dissesse a você que os livros são tão primordiais para a vida quanto a água, o que você diria? Talvez, poucas pessoas concordariam com esta afirmação, tendo em vista que milhões de pessoa em todo o mundo passam anos e anos são ler um livro sequer e suas vidas seguem em frente.

Mas foi pensando nessa questão vital que Boris Spivacow espalhava aos quatro ventos que por ser algo primordial, os livros deveriam ter um custo baixo para que mais pessoas pudessem ter acesso à literatura, independente de suas condições econômicas e sociais.

Entretanto, as grandes livrarias se afastavam da periferia de Buenos Aires e se os romances, poemas, análises acadêmicas, quisessem chegar a essas áreas era preciso traçar um novo plano de distribuição que não havia ocorrido com nenhuma editora importante até aquele momento.

Foi assim que o Centro Editor de América Latina, nascido sob a filosofia de “libros para todos”, adotou um sistema de disseminação popular. Ao contrário das editorações mais famosas, Spivacow levava seus livros para as bancas de jornal e pequenas livrarias. Com o tempo, as de maior fama passaram a revender suas obras. Dessa forma, o fundador da CEAL acreditava que a distribuição era, na verdade, o desenvolvimento de uma política social e cultural.

Essa visão só era possível porque os livros eram concebidos como algo fundamental para a vida em sociedade, para tentarmos compreender nossas comunidades, nações, o mundo, de forma questionadora. As mazelas sociais encobertas ou pouco debatidas, através das tramas e palavras, seriam reveladas e interpeladas.

Logicamente, a função de entretenimento nunca foi esquecida, mas pelo Centro Editor passaram grandes intelectuais que contribuíram com suas opiniões na tentativa de ajudar a resolver os problemas de seu país, participando fervorosamente das demandas que eram antepostas.

Muitos críticos literários distorceram e ainda distorcem o verdadeiro sentido da frase de Spivacow “Un buen libro es un buen negocio”. A CEAL nunca foi uma editora muito lucrativa, mas um bom livro passava a ser um bom negócio quando se proliferava por todos os cantos e seu conteúdo era comungado pelo maior número de pessoas possível, gerando análises diferentes e debates importantes.

Quem sabe um dia, aqui no Brasil, tenhamos alguém que chegue a governar este país e que realmente entenda que os livros são tão primordiais quanto a água. E que esses milhões de reais que estão sendo gastos para levar esse líquido em regiões que sentem sua falta, sejam milhões gastos para que o prazer pela leitura e a importância disso seja desenvolvida entre a população, fomentando a aquisição de grandes livros por preços menores e criando um país mais questionador.

Heavy Metal e as mazelas sociais

Questionar a realidade, escancarar mazelas, hipocrisias e problemas velados de nossas sociedades. As ações citadas anteriormente podem muito bem ser atribuídas a diversos tipos de expressões artísticas, mas se a música for a escolha para desenvolver tais missões, o heavy metal é um campo fértil.

Tradicionalmente os grandes escritores do metal pesado letram suas melodias com especial atenção às questões políticas, guerras, desigualdade, meio ambiente, abusos de poder, religião, conflitos psicológicos, ou seja, tudo aquilo que encaramos em nosso cotidiano e que pouco a pouco vai consumindo o vigor da humanidade.

Os fatores são diversos, mas a razão primordial é a vontade dos compositores em fazer valer cada letra e nota musical, transmitindo algo que contribua para a reflexão de seus ouvintes. Sem esse impulso, não há a tão conhecida “música questionadora”.

É óbvio que nem sempre essa é a intenção principal. A música continua sendo um excelente meio de entretenimento. E se estamos falando de heavy metal, com toda certeza, escárnio e baderna também têm seus momentos porque dar risadas de letras burlescas também é muito válido.

Interessante notar que o metal funciona como um espelho de nossa sociedade. Entretanto, diferentemente de outros tipos de artes ou meios de divulgação de informações, seu campo possibilita uma diversidade de pensamentos, além de abordar uma série de assuntos tidos como tabu, algo que nem sempre a grande mídia retrata, por exemplo. Embora, isso não queira dizer que há aceitação de todos os temas trabalhados.

Tópicos como homossexualismo, feminismo, satanismo ou abordagens com referências políticas de direita ou esquerda, sempre dão “pano pra manga” e muitas vezes levam a embates exacerbados em que o respeito pela diferença passa bem longe, mas conforme relatado, é um reflexo da sociedade.

Além dos aspectos questionadores, esse estilo musical também é capaz de nos levar a conhecer conteúdos que talvez jamais tivéssemos o interesse em tomar contato. Idade Média, colonialismo, lobotomia, pirataria nas Grandes Navegações, povos vikings, celtas, entre tantos outros, chegaram aos ouvidos de milhões graças ao peso das guitarras, baixos, baterias e vocais headbangers.

Os álbuns conceituais também contribuem para ampliar nosso conhecimento sobre grandes obras literárias ou até as próprias composições se tornam extraordinários textos. Meu primeiro contato com o livro “O Silmarillion” de J. R. R. Tolkien (o escritor de “O Senhor dos Anéis”) apenas aconteceu a partir do álbum “Nightfall in Middle Earth” dos alemães do Blind Guardian, gravado em 1998.

Ainda assim, não há como falar em metal e não abordar a contínua falta de espaço que o gênero recebe dos meios de comunicação. Para eles, motivos não faltam. As justificativas perpassam desde o chamado “besteirol” de algumas letras até a questão comercial: “Isso não vende, então não falaremos”.

Porém, a realidade é que a potência do som e os vocais excêntricos (como os guturais) assustam a maioria dos ouvintes, mas o poder de comunicação e disseminação do que poucos falam, assustam mais.

O ensurdecedor silêncio das ditaduras

Os governos ditatoriais, especialmente os do século XX em diante, independente de suas localidades, sempre se mostraram muito misantrópicos, ou seja, revelaram extremo tédio ao gênero e às relações humanas, assim como aversão à convivência social. Para a manutenção da ordem e perpetuação do poder, tudo era válido. Entretanto, a sustentação de tais regimes antidemocráticos exigia um elemento primordial: o silêncio.

Esse substantivo masculino, originado do latim silentium, sempre muito associado à calmaria, remanso e serenidade, na verdade, nesses momentos autoritários, ganhava ares de inquietude. Onde o silêncio se fazia presente, havia algo a ser dito, mas indizível. Porém, para aqueles que ousavam romper o inexprimível, as consequências quase sempre eram terríveis.

Os instrumentos para manter o mutismo chegavam a centenas. Os preferidos: perseguições, prisões, torturas e censura. Todo tipo de manifestação contrária às ideias de quem governava com punhos de ferro precisava ser amordaçada. E muitos foram calados eternamente.

Dentre tantas formas de expressão contrárias ao ditame, a literatura desempenhou um papel muito relevante ao romper os muros das taciturnidades ditatoriais. Um número infindável de obras escapava aos olhos atentos e, ao mesmo tempo, indoutos, dos censores.

A ficção dizia muito do que a realidade não podia discorrer. E a “verdade” das mentiras revelava uma “verdade” profunda, que atemorizava a todos e esvaía pouco a pouco o resto de vida que existia.

Romances e poemas, que muitas vezes deixavam a função de entreter às sarjetas, preocupavam-se em propalar aquilo que estava encoberto pelos governos através das “mentiras oficiais”. As mazelas sociais e as repressões de um período sombrio apareciam nos enredos diluídas nas ações costumeiras dos personagens em seus cotidianos, nas categorizações sociais, nas frustrações que não eram nada além de representações do que todos os cidadãos encaravam em seu dia a dia.

Em um ambiente em que calar-se era questão de vida ou morte, a literatura transformou-se em porta para a expressão do silêncio. Nela, o não dito ganhava vida e nutria a sobrevivência às almas já perdidas em meio aos cemitérios que as ditaduras transformaram as sociedades.

O silêncio nas ditaduras era ensurdecedor e o que não era dito ocultava, e o que era anormal transfigurava-se em natural. E, assim, a vida seguia para muitos. Hoje, por mais imperfeitas que as relações democráticas possam ser, a literatura talvez tenha nos legado, embora não “ensinado” a todos, que é preferível o barulho das democracias ao dilacerante silêncio das ditaduras.

A arte de desvelar e questionar o social

Pelo título do texto, muito provavelmente, você deve estar imaginando que o tema a ser apresentado nas próximas linhas será literatura ou alguma forma de arte mais rebuscada. Entretanto, vamos adentrar no terreno musical e viajar, ainda que de forma breve, nos caminhos de um gênero muito polêmico: o Heavy Metal.

Sim, o “bom e velho heavy metal” é uma chave importantíssima para compreender nossa sociedade, nossos anseios e dilemas, sem meias palavras, ainda que a metáfora seja algo muito bem quisto por muitos dos grande compositores.

Embora exista um deate inconclusivo sobre suas origens, pondera-se que o Metal tenha emergido nos finais da década de 1960 nos EUA e Inglaterra, expressando-se através de um som massivo, encorpado, utilizando-se de riffs, distorções, cordas graves e notas agudas.

O especialista Chad Bowar costuma citar as bandas Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath como prógonas. Mais tarde, Saxon, Iron Maiden, Venom, Def Leppard, entre outras que compunham a New Wave of British Heavy Metal, adicionaram mais velocidade e menos blues para impulsionar com grande intensidade esse espécime musical.

A verdade é que, desde sua origem, as composições headbangersnavegaram pelos mares do subconsciente e enfrentamentos cotidianos dos seres humanos, intimamente ligados com questões sociais e políticas que regiam, e ainda regem, nosso dia a dia.

A obra From Blues to Rock: An Analytical History of Pop Music, de David Hatch e Stephen Millward, nos indica que o Sabbath já trabalhava com temas como angústia, tristeza, drogas, morte e religião nas suas primeiras criações. Com o avanço da globalização e os hot spots da Guerra Fria e, obviamente, todas as catástrofes causadas por eles, a temática política passou a se fazer presente.

Para ficar em alguns poucos exemplos, War Pigs do Black Sabbath e 2 Minutes to Midnight do Iron Maiden são boas representantes. Isso sem contar nas composições de bandas como Metallica, Megadeth, Slayer, Napalm Death, Kreator, Anthrax e Testament.

Logicamente, boa parte da imprensa especializada ou não, é enfática ao afirmar que a vastidão de subgêneros do Heavy Metal recente podem ter desvirtuado o caráter contestador do estilo. Porém, quando escutamos conteúdos sobre o Egito antigo, a Idade Média e suas diversas culturas, as expansões marítimas, cyberworld ou robôs, são todos tópicos que se fazem presentes das mais diversas formas no tempo atual.

Muitas vezes, “voltamos” ao passado para tentar entender as trajetórias que nos trouxeram até aqui. Se qualquer objeto é abordado, é porque há um interesse nele, ainda que esse não alcance certa amplitude.

No Brasil não foi diferente, principalmente com o final da ditadura no país e as mudanças trazidas pela finalização desse triste período, o metal nacional transparecia em sua bandeira aspirações, contradições e adversidades desse tempo de “transição”, embora muito desses problemas tenham raízes na época do descobrimento e foram varridos para debaixo do tapete por muitos séculos.

Não por acaso, álbuns como Chaos A.D. e Roots da banda brasileira Sepultura são uns dos mais emblemáticos. Além de contar com uma série de elementos de música tribal e percussão, os dois CD’s abordam tópicos mundiais e nacionais como guerra, ditadura, preconceito, exploração, aculturação, exclusão social, etc. Isso sem falar em nomes como Stress, Korzus, Krisiun, Viper e Angra que nos fizeram refletir um pouco sobre nossa história, vivência e nação.

Bem na verdade, a música em si sempre gera algum tipo de reflexão, fazendo-nos “pensar”. É um erro taxar o “rock” como único estilo a conceber seres pensantes. Todavia, dentre tantos instrumentos que nos auxiliam na tentativa de compreender a vida, o heavy metal, definitivamente, motiva e alimenta nossos pensamentos, observações e discernimentos sobre o mundo e o nosso país. E quem sabe até mesmo a agir, mas essa já é outra história…

Domingos Calabar, o primeiro “traidor” brasileiro?

O processo de construção da imagem de heróis e vilões ao longo da história brasileira sempre é um assunto que suscita muitos debates, exigindo um grande esforço de análise em relação às perspectivas envoltas nessa edificação, principalmente por envolver juízos e concepções de contextos diferentes do nosso, dificultando a compreensão e apuração das reais intenções presentes nas fontes do passado.

Domingos Fernandes Calabar, tido por muitos como o primeiro traidor nascido em terras tupiniquins, se encaixa perfeitamente no quadro apresentado anteriormente. Revisitado por dezenas de historiadores, inicialmente foi estigmatizado como vilão, mais tarde, porém, coroado como herói dos holandeses e genial defensor da terra-mãe ao optar pelo desenvolvimento de sua região, ao contrário da “exiguidade portuguesa”.

O pano de fundo dessa peça intrigante é o projeto de ocupação holandesa à região do atual nordeste brasileiro no século XVII, didaticamente conhecido como “invasões holandesas”, quando o Brasil colônia era integrado à União Ibérica. Findado forçosamente o plano de controlar Salvador, na Bahia, os neerlandeses rumaram para Pernambuco em 1630.

Por lá, também encontraram grande resistência e defrontaram a figura de Calabar, então senhor de engenho que apoiava o lado dos resistentes. Mulato ou mameluco, controversa jamais solucionada, nosso “vilão/herói” auxiliava as chamadas “emboscadas” contra os invasores, principalmente devido ao seu grande conhecimento do território, dificultando as ações estrangeiras.

Porém, num contexto em que grandes latifundiários da cana passaram a apoiar as forças dos Países Baixos, Calabar ousou trilhar o mesmo caminho. Poderia ser por imaginar que, ao final, tudo seria perdido de qualquer forma. A intenção de ganhar uma grande recompensa por auxiliar os holandeses. Até mesmo entendê-los como grandes empreendedores, enxergando um futuro mais dourado sobre o domínio deles e não dos portugueses. Difícil ser exato. Mas, de fato, o cambio aconteceu em 22 de abril de 1632. A data, por sinal, se fez emblemática ao representar o oposto a 21 de abril, dia de um grande “herói nacional”, conhecido popularmente por Tiradentes.

Dali em diante, os invasores passaram a desenvolver uma série de conquistas até finalmente “sujeitar” boa parte do nordeste brasileiro ao seu controle. Calabar, porém, teve um fim muito próximo ao do alferes mineiro. Capturado, o primeiro “traidor do Brasil” foi condenado à morte e submetido ao garrote em 1635, honraria concedida, por exemplo, ao imperador inca Atahualpa. Posteriormente, foi esquartejado e suas partes foram expostas.

Apura-se, antes do então defensor passar para o lado holandês, que este teria exigido informações sobre como a população da região seria tratada após o triunfo dos invasores. Recebendo a garantia de que a relação seria pacífica, seduziu-se pela ideia de que os neerlandeses libertariam o povo, diferentemente dos portugueses que há tanto os escravizavam.

Mesmo após morte trágica, a verdade é que Domingos Fernandes Calabar continua alimentando controvérsias e permanece bem vívido, a postos para ser transformado a qualquer momento naquilo que lhe quiserem converter.

Folclore brasileiro versus Halloween: uma outra perspectiva

Todo ano a mesma coisa acontece. Quando nos aproximamos do dia 31 de outubro — data em que tradicionalmente os países colonizados ou que sofreram influências culturais dos ingleses comemoram o Halloween — uma enxurrada de educadores, escritores, políticos e profissionais de diversas áreas, vêm a público para manifestar a indignação de se comemorar esta data em nosso território, por distintos motivos.

O assunto é tão sério que é possível encontrar diversos projetos de lei, federais, estaduais, municipais, que se propuseram a oficializar o trigésimo primeiro dia do mês de outubro como o Dia do Saci para combater o monstro estrangeiro que ameaça a cultura brasileira e impede que as crianças conheçam seu próprio folclore.

Em muitas matérias de jornais e sites especializados, é possível depreender dos textos que esse dia foi escolhido para “marcar a resistência” contra o famigerado evento internacional, como se estivéssemos aprisionados, conseguindo empreender uma rápida fuga e agora, em nosso mocambo, há caminho livre para desenvolver as estratégias de ataque e reação.

Outro objetivo, como o de “resgatar” as figuras do folclore brasileiro, também é constantemente apresentado. Ora, sequestraram as efígies nacionais e não avisaram ninguém? O folclore brasileiro sempre esteve aqui, o problema é que muitos de nós legamos a ele o cantinho das salas de aula e o expiamos somente em determinadas ocasiões e olhe lá.

O “Dia do Folclore” já existe desde 1965, espólio da ditadura militar brasileira, mas o grande problema é que ele continua sendo tratado como realmente um dia, algo superficial. Foi preciso intensificar as comemorações do Halloween para que se começasse a perceber que muito da cultura pátria sempre foi esquecida e o culpado não é o ilustre evento, a não ser o próprio brasileiro.

É muito mais fácil incriminar o que vem de fora, do que parar um pequeno momento e analisar as próprias atitudes. Em um mundo globalizado e que a internet dá livre acesso ao conhecimento de milhares de culturas diferentes, seria um crime obstaculizar que as pessoas tomem contato com diferentes manifestações e formas de pensar das que se está acostumado.

A origem do Halloween, embora não haja um consenso entre os historiadores, pode advir de uma celebração celta que marcava o final do período fértil (verão) no hemisfério norte, o chamado Samhain, há pelo menos 600 a.C. na região das atuais França e Inglaterra.

Por ser um período de transição, acreditava-se que o “véu” entre o mundo dos mortos e os vivos era desvelado, e os antepassados retornavam a suas casas para visitar seus familiares, alimentando-se e aquecendo-se do frio, por isso a preparação de alimentos e bebidas.

Com a expansão do cristianismo pela Europa, uma das práticas desenvolvidas para a conquista e perduração na fé dos novos fiéis era assimilar algumas festas pagãs às festividades cristãs.

No ano de 835, a Igreja Católica, através do Papa Gregório III, estabeleceu o dia 1° de novembro como o Dia de Todos os Santos. A data era celebrada inicialmente em maio. No século seguinte, o Papa Gregório IV tornou a celebração universal, auferindo-lhe, assim, uma celebração no dia anterior, a vigília.

Em inglês, temos a denominação de All Hallow’s Eve (Véspera de Todos os Santos), que depois se abreviou como Halloween.

Alguns componentes da festa foram agregados ao longo do tempo. Na Idade Média, provavelmente na França, principalmente no século XIV em que a Peste Negra assolou o continente europeu, as celebrações pelos mortos se popularizaram e no dia dedicado a eles, crianças batiam de porta em porta pedindo um pedaço de bolo em troca de orações pelas almas no outro mundo.

Não há uma concordância entre os historiadores, mas possivelmente na Inglaterra, o costume citado anteriormente tenha evoluído para o “trick or treat”, diretamente relacionado aos conflitos entre católicos e protestantes, em que os segundos se dirigiam fantasiados até às casas dos primeiros, exigindo cervejas e pasteis.

Essa era uma forma debochada de aludir à prisão e morte de Guy Fawkes, católico convertido que foi enforcado por participar do que seria a explosão do parlamento inglês na tentativa de garantir mais liberdade aos católicos na Inglaterra no início do século XVII.

Já no século XIX, nos EUA, outras modificações aconteceram. Por exemplo, a utilização das abóboras com velas. Na antiguidade, os nabos é que sofriam as modificações, sendo esculpidos em formatos de cabeça e ganhavam velas acesas. E foi efetivamente lá que a comemoração alcançou o formato atual e, com o avanço dos anos, passou a ser explorada comercialmente.

Como visto, a comemoração do Halloween é uma reunião de múltiplos componentes gerados em culturas díspares. Temos ali religiões e povos diferentes representados, ao menos abstratamente, algo que possibilita a busca pelo conhecimento de outros valores e práticas, se bem trabalhado.

Precisamos compreender que a cultura, em geral, é dinâmica, está em constante transformação, embora a velocidade dessa mudança possa ser irregular, dependendo da localidade. Ela também pode ser estável, sem dúvidas, mas o Brasil se demonstra um país em que a cultura é muito intercomunicativa e instigada por elementos oriundos dos mais diferentes lugares do mundo. Querer combater as influências externas mediante um contexto em que as nações estão mais próximas a cada segundo é quase inverossímil.

Não precisamos banir o diálogo intercultural para que o folclore nacional possa ser conhecido por todo o território brasileiro. Por que os materiais didáticos escolares não podem trabalhar textos, imagens, problemas matemáticos, entre tantas outras formas, que contenham elementos ou personagens do folclore tupiniquim ligados ao cotidiano dos alunos?

Não se vê muito isso nas escolas, a não ser em conteúdos programados para o mês de agosto ou outubro que acabam se desconectando totalmente de um processo mais significativo de compreensão da cultura do país. E isso pode ser feito, sem tolher a oportunidade de que os estudantes tomem contato também com os hábitos e costumes de outros povos.

Há espaço para a convivência entre o Halloween e os personagens míticos brasileiros, mas é necessário proporcionar muito mais oportunidades para que as crianças conheçam os costumes, histórias e saberes de sua nação. E isso deve ocorrer dentro de uma perspectiva pacificadora e abrangente, exatamente o contrário do que muitos pregam: uma cruzada entre brasilidade e estrangeirismo em que os estudantes parecem ser obrigados a escolher um ao outro.