O ensurdecedor silêncio das ditaduras

Os governos ditatoriais, especialmente os do século XX em diante, independente de suas localidades, sempre se mostraram muito misantrópicos, ou seja, revelaram extremo tédio ao gênero e às relações humanas, assim como aversão à convivência social. Para a manutenção da ordem e perpetuação do poder, tudo era válido. Entretanto, a sustentação de tais regimes antidemocráticos exigia um elemento primordial: o silêncio.

Esse substantivo masculino, originado do latim silentium, sempre muito associado à calmaria, remanso e serenidade, na verdade, nesses momentos autoritários, ganhava ares de inquietude. Onde o silêncio se fazia presente, havia algo a ser dito, mas indizível. Porém, para aqueles que ousavam romper o inexprimível, as consequências quase sempre eram terríveis.

Os instrumentos para manter o mutismo chegavam a centenas. Os preferidos: perseguições, prisões, torturas e censura. Todo tipo de manifestação contrária às ideias de quem governava com punhos de ferro precisava ser amordaçada. E muitos foram calados eternamente.

Dentre tantas formas de expressão contrárias ao ditame, a literatura desempenhou um papel muito relevante ao romper os muros das taciturnidades ditatoriais. Um número infindável de obras escapava aos olhos atentos e, ao mesmo tempo, indoutos, dos censores.

A ficção dizia muito do que a realidade não podia discorrer. E a “verdade” das mentiras revelava uma “verdade” profunda, que atemorizava a todos e esvaía pouco a pouco o resto de vida que existia.

Romances e poemas, que muitas vezes deixavam a função de entreter às sarjetas, preocupavam-se em propalar aquilo que estava encoberto pelos governos através das “mentiras oficiais”. As mazelas sociais e as repressões de um período sombrio apareciam nos enredos diluídas nas ações costumeiras dos personagens em seus cotidianos, nas categorizações sociais, nas frustrações que não eram nada além de representações do que todos os cidadãos encaravam em seu dia a dia.

Em um ambiente em que calar-se era questão de vida ou morte, a literatura transformou-se em porta para a expressão do silêncio. Nela, o não dito ganhava vida e nutria a sobrevivência às almas já perdidas em meio aos cemitérios que as ditaduras transformaram as sociedades.

O silêncio nas ditaduras era ensurdecedor e o que não era dito ocultava, e o que era anormal transfigurava-se em natural. E, assim, a vida seguia para muitos. Hoje, por mais imperfeitas que as relações democráticas possam ser, a literatura talvez tenha nos legado, embora não “ensinado” a todos, que é preferível o barulho das democracias ao dilacerante silêncio das ditaduras.

A arte de desvelar e questionar o social

Pelo título do texto, muito provavelmente, você deve estar imaginando que o tema a ser apresentado nas próximas linhas será literatura ou alguma forma de arte mais rebuscada. Entretanto, vamos adentrar no terreno musical e viajar, ainda que de forma breve, nos caminhos de um gênero muito polêmico: o Heavy Metal.

Sim, o “bom e velho heavy metal” é uma chave importantíssima para compreender nossa sociedade, nossos anseios e dilemas, sem meias palavras, ainda que a metáfora seja algo muito bem quisto por muitos dos grande compositores.

Embora exista um deate inconclusivo sobre suas origens, pondera-se que o Metal tenha emergido nos finais da década de 1960 nos EUA e Inglaterra, expressando-se através de um som massivo, encorpado, utilizando-se de riffs, distorções, cordas graves e notas agudas.

O especialista Chad Bowar costuma citar as bandas Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath como prógonas. Mais tarde, Saxon, Iron Maiden, Venom, Def Leppard, entre outras que compunham a New Wave of British Heavy Metal, adicionaram mais velocidade e menos blues para impulsionar com grande intensidade esse espécime musical.

A verdade é que, desde sua origem, as composições headbangersnavegaram pelos mares do subconsciente e enfrentamentos cotidianos dos seres humanos, intimamente ligados com questões sociais e políticas que regiam, e ainda regem, nosso dia a dia.

A obra From Blues to Rock: An Analytical History of Pop Music, de David Hatch e Stephen Millward, nos indica que o Sabbath já trabalhava com temas como angústia, tristeza, drogas, morte e religião nas suas primeiras criações. Com o avanço da globalização e os hot spots da Guerra Fria e, obviamente, todas as catástrofes causadas por eles, a temática política passou a se fazer presente.

Para ficar em alguns poucos exemplos, War Pigs do Black Sabbath e 2 Minutes to Midnight do Iron Maiden são boas representantes. Isso sem contar nas composições de bandas como Metallica, Megadeth, Slayer, Napalm Death, Kreator, Anthrax e Testament.

Logicamente, boa parte da imprensa especializada ou não, é enfática ao afirmar que a vastidão de subgêneros do Heavy Metal recente podem ter desvirtuado o caráter contestador do estilo. Porém, quando escutamos conteúdos sobre o Egito antigo, a Idade Média e suas diversas culturas, as expansões marítimas, cyberworld ou robôs, são todos tópicos que se fazem presentes das mais diversas formas no tempo atual.

Muitas vezes, “voltamos” ao passado para tentar entender as trajetórias que nos trouxeram até aqui. Se qualquer objeto é abordado, é porque há um interesse nele, ainda que esse não alcance certa amplitude.

No Brasil não foi diferente, principalmente com o final da ditadura no país e as mudanças trazidas pela finalização desse triste período, o metal nacional transparecia em sua bandeira aspirações, contradições e adversidades desse tempo de “transição”, embora muito desses problemas tenham raízes na época do descobrimento e foram varridos para debaixo do tapete por muitos séculos.

Não por acaso, álbuns como Chaos A.D. e Roots da banda brasileira Sepultura são uns dos mais emblemáticos. Além de contar com uma série de elementos de música tribal e percussão, os dois CD’s abordam tópicos mundiais e nacionais como guerra, ditadura, preconceito, exploração, aculturação, exclusão social, etc. Isso sem falar em nomes como Stress, Korzus, Krisiun, Viper e Angra que nos fizeram refletir um pouco sobre nossa história, vivência e nação.

Bem na verdade, a música em si sempre gera algum tipo de reflexão, fazendo-nos “pensar”. É um erro taxar o “rock” como único estilo a conceber seres pensantes. Todavia, dentre tantos instrumentos que nos auxiliam na tentativa de compreender a vida, o heavy metal, definitivamente, motiva e alimenta nossos pensamentos, observações e discernimentos sobre o mundo e o nosso país. E quem sabe até mesmo a agir, mas essa já é outra história…

Domingos Calabar, o primeiro “traidor” brasileiro?

O processo de construção da imagem de heróis e vilões ao longo da história brasileira sempre é um assunto que suscita muitos debates, exigindo um grande esforço de análise em relação às perspectivas envoltas nessa edificação, principalmente por envolver juízos e concepções de contextos diferentes do nosso, dificultando a compreensão e apuração das reais intenções presentes nas fontes do passado.

Domingos Fernandes Calabar, tido por muitos como o primeiro traidor nascido em terras tupiniquins, se encaixa perfeitamente no quadro apresentado anteriormente. Revisitado por dezenas de historiadores, inicialmente foi estigmatizado como vilão, mais tarde, porém, coroado como herói dos holandeses e genial defensor da terra-mãe ao optar pelo desenvolvimento de sua região, ao contrário da “exiguidade portuguesa”.

O pano de fundo dessa peça intrigante é o projeto de ocupação holandesa à região do atual nordeste brasileiro no século XVII, didaticamente conhecido como “invasões holandesas”, quando o Brasil colônia era integrado à União Ibérica. Findado forçosamente o plano de controlar Salvador, na Bahia, os neerlandeses rumaram para Pernambuco em 1630.

Por lá, também encontraram grande resistência e defrontaram a figura de Calabar, então senhor de engenho que apoiava o lado dos resistentes. Mulato ou mameluco, controversa jamais solucionada, nosso “vilão/herói” auxiliava as chamadas “emboscadas” contra os invasores, principalmente devido ao seu grande conhecimento do território, dificultando as ações estrangeiras.

Porém, num contexto em que grandes latifundiários da cana passaram a apoiar as forças dos Países Baixos, Calabar ousou trilhar o mesmo caminho. Poderia ser por imaginar que, ao final, tudo seria perdido de qualquer forma. A intenção de ganhar uma grande recompensa por auxiliar os holandeses. Até mesmo entendê-los como grandes empreendedores, enxergando um futuro mais dourado sobre o domínio deles e não dos portugueses. Difícil ser exato. Mas, de fato, o cambio aconteceu em 22 de abril de 1632. A data, por sinal, se fez emblemática ao representar o oposto a 21 de abril, dia de um grande “herói nacional”, conhecido popularmente por Tiradentes.

Dali em diante, os invasores passaram a desenvolver uma série de conquistas até finalmente “sujeitar” boa parte do nordeste brasileiro ao seu controle. Calabar, porém, teve um fim muito próximo ao do alferes mineiro. Capturado, o primeiro “traidor do Brasil” foi condenado à morte e submetido ao garrote em 1635, honraria concedida, por exemplo, ao imperador inca Atahualpa. Posteriormente, foi esquartejado e suas partes foram expostas.

Apura-se, antes do então defensor passar para o lado holandês, que este teria exigido informações sobre como a população da região seria tratada após o triunfo dos invasores. Recebendo a garantia de que a relação seria pacífica, seduziu-se pela ideia de que os neerlandeses libertariam o povo, diferentemente dos portugueses que há tanto os escravizavam.

Mesmo após morte trágica, a verdade é que Domingos Fernandes Calabar continua alimentando controvérsias e permanece bem vívido, a postos para ser transformado a qualquer momento naquilo que lhe quiserem converter.

Folclore brasileiro versus Halloween: uma outra perspectiva

Todo ano a mesma coisa acontece. Quando nos aproximamos do dia 31 de outubro — data em que tradicionalmente os países colonizados ou que sofreram influências culturais dos ingleses comemoram o Halloween — uma enxurrada de educadores, escritores, políticos e profissionais de diversas áreas, vêm a público para manifestar a indignação de se comemorar esta data em nosso território, por distintos motivos.

O assunto é tão sério que é possível encontrar diversos projetos de lei, federais, estaduais, municipais, que se propuseram a oficializar o trigésimo primeiro dia do mês de outubro como o Dia do Saci para combater o monstro estrangeiro que ameaça a cultura brasileira e impede que as crianças conheçam seu próprio folclore.

Em muitas matérias de jornais e sites especializados, é possível depreender dos textos que esse dia foi escolhido para “marcar a resistência” contra o famigerado evento internacional, como se estivéssemos aprisionados, conseguindo empreender uma rápida fuga e agora, em nosso mocambo, há caminho livre para desenvolver as estratégias de ataque e reação.

Outro objetivo, como o de “resgatar” as figuras do folclore brasileiro, também é constantemente apresentado. Ora, sequestraram as efígies nacionais e não avisaram ninguém? O folclore brasileiro sempre esteve aqui, o problema é que muitos de nós legamos a ele o cantinho das salas de aula e o expiamos somente em determinadas ocasiões e olhe lá.

O “Dia do Folclore” já existe desde 1965, espólio da ditadura militar brasileira, mas o grande problema é que ele continua sendo tratado como realmente um dia, algo superficial. Foi preciso intensificar as comemorações do Halloween para que se começasse a perceber que muito da cultura pátria sempre foi esquecida e o culpado não é o ilustre evento, a não ser o próprio brasileiro.

É muito mais fácil incriminar o que vem de fora, do que parar um pequeno momento e analisar as próprias atitudes. Em um mundo globalizado e que a internet dá livre acesso ao conhecimento de milhares de culturas diferentes, seria um crime obstaculizar que as pessoas tomem contato com diferentes manifestações e formas de pensar das que se está acostumado.

A origem do Halloween, embora não haja um consenso entre os historiadores, pode advir de uma celebração celta que marcava o final do período fértil (verão) no hemisfério norte, o chamado Samhain, há pelo menos 600 a.C. na região das atuais França e Inglaterra.

Por ser um período de transição, acreditava-se que o “véu” entre o mundo dos mortos e os vivos era desvelado, e os antepassados retornavam a suas casas para visitar seus familiares, alimentando-se e aquecendo-se do frio, por isso a preparação de alimentos e bebidas.

Com a expansão do cristianismo pela Europa, uma das práticas desenvolvidas para a conquista e perduração na fé dos novos fiéis era assimilar algumas festas pagãs às festividades cristãs.

No ano de 835, a Igreja Católica, através do Papa Gregório III, estabeleceu o dia 1° de novembro como o Dia de Todos os Santos. A data era celebrada inicialmente em maio. No século seguinte, o Papa Gregório IV tornou a celebração universal, auferindo-lhe, assim, uma celebração no dia anterior, a vigília.

Em inglês, temos a denominação de All Hallow’s Eve (Véspera de Todos os Santos), que depois se abreviou como Halloween.

Alguns componentes da festa foram agregados ao longo do tempo. Na Idade Média, provavelmente na França, principalmente no século XIV em que a Peste Negra assolou o continente europeu, as celebrações pelos mortos se popularizaram e no dia dedicado a eles, crianças batiam de porta em porta pedindo um pedaço de bolo em troca de orações pelas almas no outro mundo.

Não há uma concordância entre os historiadores, mas possivelmente na Inglaterra, o costume citado anteriormente tenha evoluído para o “trick or treat”, diretamente relacionado aos conflitos entre católicos e protestantes, em que os segundos se dirigiam fantasiados até às casas dos primeiros, exigindo cervejas e pasteis.

Essa era uma forma debochada de aludir à prisão e morte de Guy Fawkes, católico convertido que foi enforcado por participar do que seria a explosão do parlamento inglês na tentativa de garantir mais liberdade aos católicos na Inglaterra no início do século XVII.

Já no século XIX, nos EUA, outras modificações aconteceram. Por exemplo, a utilização das abóboras com velas. Na antiguidade, os nabos é que sofriam as modificações, sendo esculpidos em formatos de cabeça e ganhavam velas acesas. E foi efetivamente lá que a comemoração alcançou o formato atual e, com o avanço dos anos, passou a ser explorada comercialmente.

Como visto, a comemoração do Halloween é uma reunião de múltiplos componentes gerados em culturas díspares. Temos ali religiões e povos diferentes representados, ao menos abstratamente, algo que possibilita a busca pelo conhecimento de outros valores e práticas, se bem trabalhado.

Precisamos compreender que a cultura, em geral, é dinâmica, está em constante transformação, embora a velocidade dessa mudança possa ser irregular, dependendo da localidade. Ela também pode ser estável, sem dúvidas, mas o Brasil se demonstra um país em que a cultura é muito intercomunicativa e instigada por elementos oriundos dos mais diferentes lugares do mundo. Querer combater as influências externas mediante um contexto em que as nações estão mais próximas a cada segundo é quase inverossímil.

Não precisamos banir o diálogo intercultural para que o folclore nacional possa ser conhecido por todo o território brasileiro. Por que os materiais didáticos escolares não podem trabalhar textos, imagens, problemas matemáticos, entre tantas outras formas, que contenham elementos ou personagens do folclore tupiniquim ligados ao cotidiano dos alunos?

Não se vê muito isso nas escolas, a não ser em conteúdos programados para o mês de agosto ou outubro que acabam se desconectando totalmente de um processo mais significativo de compreensão da cultura do país. E isso pode ser feito, sem tolher a oportunidade de que os estudantes tomem contato também com os hábitos e costumes de outros povos.

Há espaço para a convivência entre o Halloween e os personagens míticos brasileiros, mas é necessário proporcionar muito mais oportunidades para que as crianças conheçam os costumes, histórias e saberes de sua nação. E isso deve ocorrer dentro de uma perspectiva pacificadora e abrangente, exatamente o contrário do que muitos pregam: uma cruzada entre brasilidade e estrangeirismo em que os estudantes parecem ser obrigados a escolher um ao outro.

O Brasil precisa de livros

O atual momento político brasileiro, manchado pela corrupção, está longe de ser um filho do século XXI. Grandes estudiosos como Sérgio Buarque de Holanda, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Raymundo Faoro, Kimberly Ann Elliott, Matthew Taylor e Timothy Power, já nos ofereceram subsídios suficientes para compreender que os atos corruptivos nos circundam desde os tempos coloniais. Aliás, corromper é uma lástima que acompanha os seres humanos muito antes dos portugueses desembarcarem em terras tupiniquins.

Diversos intelectuais constantemente apresentam propostas para combater esse mal que inunda boa parte do planeta. Contudo, não são muitos os que afirmam enxergar na literatura a possibilidade de modificar esse quadro político lastimável de forma mais efetiva, principalmente porque age mais no aspecto individual e isso poder variar de pessoa para pessoa.

A mais recente pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, divulgada no primeiro trimestre deste ano, revela que o público leitor brasileiro aumentou em relação ao último estudo realizado em 2011.

Segundo os dados de 2015, 56% dos brasileiros, ou seja, 104,7 milhões são considerados leitores (neste caso, os habitantes que tenham lido ao menos um livro nos últimos três meses). Embora a bíblia e as obras religiosas sejam a preferência nacional, as escolhas posteriores é que chamam a atenção: contos e romances. E neles pode residir a chave para que a literatura venha a contribuir em direção a uma mudança.

Através também das ficções, alimentadas pela realidade que as envolve, é possível que o leitor seja levado a questionar o funcionamento da sua sociedade e as mazelas existentes, passando por uma reflexão aprofundada de sua comunidade e de seu próprio modo de vida.

Muitas vezes, é através das tramas e de suas quimeras que o indivíduo reconhece suas fragilidades e incorreções, conseguindo ponderar que atitudes como essas podem contribuir para a degradação de seu contexto, ainda que de uma forma mínima. Trocando em miúdos, não é possível reclamar da corrupção, se você sempre busca o famoso “jeitinho brasileiro” para escapar de uma repreensão aos olhos da lei.

De fato, o Brasil precisa de livros, literatura e, mais do que isso, precisa de leitores comprometidos em transformar a nossa realidade, tornando-se agentes de um processo de mudança que passa primeiro pelas ações cotidianas dos cidadãos, que, posteriormente, podem resultar em modificações mais agudas para os caminhos políticos de nosso país.

Obviamente, construir uma nação de leitores não levará por si só à diminuição da corrupção no Brasil ou resolver outros grandes problemas, mas uma sociedade leitora é mais questionadora, reflexiva e debatedora.

Na prática, isso pode resultar em uma mudança no perfil dos políticos que serão eleitos desde o âmbito municipal até o federal, inclusive uma transformação nos padrões das aclamadas promessas de campanha que nunca se concretizam, principalmente porque a imensa maioria dos eleitores ainda não cobra e rapidamente se esquece dos compromissos estabelecidos para a conquista de votos.

Nem o Carnaval escapou

O carnaval é, definitivamente, uma das maiores festas populares no Brasil e que apresenta nuances pautadas em regionalismos, religiões, entre tantos outros aspectos culturais. Mas mesmo uma festividade tão grande quanto essa não foi capaz de escapar das garras da ditadura militar no Brasil.

Obviamente, quando se trata de um regime político como esse, o que mais se espera é a falta de liberdade com a intromissão governamental nas diferentes áreas da sociedade, visando combater qualquer tipo de objeções e hostilidades que venham a enfraquecer a imagem e o poder desse modelo administrativo.

Principalmente depois do Ato Institucional Número Cinco, instituído em 1968 no governo do general Costa e Silva, letras de músicas, peças de teatro, novelas, filmes, e até mesmo os sambas enredos de carnaval, obrigatoriamente passavam pela “dissecação” dos censores, para posteriormente serem liberados, quase sempre com ressalvas, ou proibidos de vez.

Geralmente em grandes centros, como é o caso do Rio de Janeiro, desde pequenos blocos de foliões até as gigantescas escolas de samba precisavam apresentar extensos portfólios com explicações minuciosamente detalhadas do que pretendiam apresentar ao público. Até mesmo os ensaios das agremiações chegaram a ser monitorados.

O historiador Luiz Antônio Simas, em seu livro “Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos”, relata que o enredo “Heróis da Liberdade” desenvolvido pelo Império Serrano em 1969 precisou receber alterações na música. A palavra “revolução” foi modificada para “evolução”.

Já no ano de 1974, a Unidos de Vila Isabel, foi obrigada a alterar seu enredo que pretendia enaltecer os índios Carajás e reprovar a ideia de progresso a qualquer custo. O tema chocava com a ideia governamental de avanço, tão caro ao período denominado de “Milagre econômico”. O samba foi criado por Martinho da Vila, mas acabou embargado da disputa para desfilar na avenida.

Dessa forma, a apresentação acabou se transformando em uma exaltação à construção da rodovia Transamazônica, que até hoje permanece incompleta, sem pavimentação em diversos trechos, principalmente no Norte do país. Àquela obra era símbolo da grandiosidade pretendida pelos militares, mas jamais alcançada.

Ainda assim, através das muitas artimanhas e dispositivos que os compositores musicais da época tão bem conceberam, o carnaval resistiu e insurgiu-se contra a ditadura através das metáforas que os agentes militares não conseguiram compreender, mas que o povo cantou:

“Um sorriso sem fúria entre o réu e o juiz; A clemência e a ternura por amor da clausura; A prisão sem tortura, inocência feliz; Ai meu Deus; Falso sonho que eu sonhava” (Sonho de um sonho, Martinho da Vila, 1980).

Como surgiu o “Dia da Fraternidade Universal e da Paz”

Todo início de um novo ano apresenta-se para nós como uma oportunidade de buscar novas realizações ou até mesmo manter tudo o que deu certo na temporada que se passou, mas sempre com a intenção de ampliar novos horizontes. Não por acaso, o primeiro dia de janeiro se tornou o “Dia da Fraternidade Universal e da Paz” para a grande maioria dos países.

Mas nem sempre foi assim. Até a primeira metade do século XX, quando o mundo sofreu duros golpes com as duas grandes guerras mundiais e a capacidade infinita de destruição em massa, além da incapacidade dos seres humanos em resolver seus conflitos e diferenças de uma forma não aterrorizante, essa comemoração não era oficial.

Após esses terríveis episódios, entre tantos outros em séculos passados, no dia oito de dezembro de 1968, no contexto de Guerra Fria e de continuação da descolonização na África e Ásia, o Papa Paulo VI, através de uma mensagem, convocou a humanidade, independente do credo, a comemorar o primeiro de janeiro como o Dia da Paz.

“Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o “Dia da Paz”, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de Janeiro de 1968.

Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro” (PAULUS PP. VI).

Nem todos os povos e nações comemoram especificamente na mesma data, principalmente porque alguns países não utilizam o calendário gregoriano ou porque têm religiões oficiais diferentes do catolicismo romano.

No caso da China, para os que seguem o calendário de caráter lunissolar, a mudança de ano pode acontecer entre o final de janeiro e começo de fevereiro, quando se espera por muita sorte, felicidade e prosperidade na nova etapa que se inicia.

Já os judeus comemoram o Rosh Hashaná no primeiro dia do mês Tishrei, o primeiro do calendário judaico rabínico, voltando-se para um período de meditação e pensamento nos atos do ano anterior, ocorre no mês de setembro. A época relaciona-se ao Dia de Julgamento (Yom ha-Din) e o Dia de Lembrança (Yom ha-Zikkaron), evocando a piedade de Deus no veredito divino das condutas desenvolvidas pelos judeus.

A virada de ano para islâmicos acontece em datas variadas por seguir um calendário lunar. A contagem dos dias tem seu início correspondente à Hégira, quando Maomé fugiu de Meca para Medina, em 16 de julho de 622 da era cristã, embora diversos autores difiram sobre a exatidão, realocando-a para 20 de setembro do mesmo ano.

Em geral, não há celebrações, mas sim um momento de oração e recolhimento. Por ser uma inovação (bidah), para muitos, qualquer tipo de referência a um “feliz ano novo” é algo proibido (haram), sendo contrário aos preceitos islâmicos.

No campo político, o “Dia Internacional da Paz” foi oficialmente estabelecido no dia 21 de setembro de 1981 pela Organização das Nações Unidas, quando a resolução 36/37 da Assembleia Geral salientou: “(…) a declaração e celebração apropriada de um ano internacional da paz, seria possível contribuir com o fortalecimento desses ideais de paz e aliviar as tensões e causas de conflitos tanto dentro como entre nas nações e povos”.

Entretanto, o primeiro dia do ano também recebeu a chancela da ONU como “Dia da Confraternização Universal” que enfatiza sempre nesta data a necessidade do diálogo e da paz entre os diferentes povos e nações.