Genji Monogatari: o primeiro romance e os aspectos do período Heian

Se o clima é de romance, em pleno mês do “Dia dos Namorados” para os brasileiros, nada melhor do que descobrir mais sobre o primeiro romance que a humanidade tem conhecimento. Genji Monogatari, ou o O Conto de Genji, em tradução literal, é considerado o primeiro romance literário do mundo.

Foi escrito no Japão, durante o século XI, em um contexto muito positivo para o desenvolvimento cultural no país e demarcado pelo início da ascensão dos samurais.

A autoria da obra é atribuída a Murasaki Shikibu, uma mulher que integrava a corte da imperatriz. Entretanto, estudos históricos recentes indicam que a continuidade do texto recebeu a contribuição de outros escritores. Inicialmente, os escritores ficaram restritos à aristocracia japonesa, principalmente porque a leitura era uma atividade para poucos.

Com cinquenta e quatro capítulos, o livro não é uma ficção e baseia-se em eventos reais com evolução dos personagens ao longo do tempo, assim como em nossas vidas. A narração conta a história de Hikaru Genji, filho de um imperador japonês, que por fatores políticos não consegue suceder o pai e acaba se apaixonando por Fujitsubo, uma das mulheres do patriarca e muito parecida com a mãe de Genji, já falecida.

Sem o trono e sem o principal amor de sua vida, esses dois obstáculos o seguirão até a morte e estarão intimamente relacionados ao desenrolar de sua existência, principalmente pela incompletude no campo afetivo, que tentará ser preenchido com dezenas de casos amorosos.

Embora seja muito cultuado e tenha se tornado uma tradição na literatura oriental, a composição é bem complexa. Apresenta cerca de quatrocentos personagens e estes não recebem nomes. Isso porque nesse período, costumeiramente, não se fazia referência direta a uma pessoa pelo seu nome. No caso dos homens, os cargos e títulos os identificavam. Já as mulheres recebiam um designativo a partir de suas vestimentas.

A ambiguidade do vocabulário também se faz presente e dificulta a tradução e compreensão atuais principalmente devido aos caracteres estarem em kana, uma escrita utilizada pelas mulheres em detrimento ao kanji, utilizado para os homens. A presença de homófonos — palavras com significados diferentes, mas pronúncia igual — similarmente exige um nível de atenção à conjuntura trabalhada. Ainda assim, nem sempre é possível atingir um entendimento satisfatório.

Além disso, uma técnica narrativa apresentada ao longo da obra também intrinca o entendimento de alguns trechos. Esse procedimento consistia em utilizar partes de conhecidos poemas da época para que os leitores automaticamente os completassem em sua mente. Algo difícil de assimilar para os dias atuais.

Mesmo com as pequenas adversidades relatadas até aqui, ao se aprofundar nas emoções dos personagens, a obra entrelaça elementos psicológicos aos impulsos e motivações da vivência dos indivíduos, retratando de forma magistral o contexto da sociedade japonesa do período Heian.

À vista disso, todo o trabalho de Murasaki Shikibu e de outros coadjutores, nos garante uma grande oportunidade de mergulhar profundamente nos elementos mais obscuros das mentes e da sociedade japonesa, desvelando os véus de um cenário social repleto de certames entre imperadores e nobreza (embora seja demarcado como um tempo de paz) e de enfraquecimento econômico e exploração dos populares, sendo a beleza e a aparência elementos primordiais para aferição do valor e benignidade de um indivíduo.

Excertos sobre a origem do dia internacional da mulher

“8 de março — Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida” publicado pela SOF (Sempreviva Organização Feminista), Alexandra Kollontai, dirigente feminista da revolução socialista escreveu sobre o oito de março, mas, curiosamente, desaparece da história do evento. Diz ela: “O dia das operárias em 8 de março de 1917 foi uma data memorável na história. A revolução de fevereiro acabara de começar”.

O fato também é mencionado por Trotski, dirigente da revolução na obra “História da Revolução Russa”. Sendo assim, as mulheres desencadearam a greve geral, saindo às ruas de Petrogrado em marcha contra a fome, a guerra e o czarismo. Declara o líder: “23 de fevereiro (8 de março), era o dia internacional das mulheres estava programado atos, encontros etc. Mas não imaginávamos que este ‘dia das mulheres’ viria a inaugurar a revolução”.

Para a historiadora Renée Cote, durante as pesquisas em fontes dos movimentos feministas, assim como em jornais da imprensa socialista americana do começo do século XX, não há referências sobre uma greve de trabalhadoras americanas, manifestações de mulheres ou um dia da mulher.

Segundo ela, existiram greves e repressões de trabalhadores e trabalhadoras no final do século XIX até início do XX, mas nenhum desses eventos faz alusão a respeito da morte de mulheres em Nova York, eventualmente originando o dia de luta das mulheres.

Em 3 de maio de 1908, em Chicago, foi comemorado o primeiro Woman’s day, presidido por Lorine S. Brown, documentado pelo jornal mensal The Socialist Woman, no Garrick Theather, com a participação de 1500 mulheres. Este dia foi dedicado à causa das operárias, denunciando a exploração e a opressão das mulheres, mas defendendo, com destaque, o voto feminino, a autonomia e igualdade dos sexos. Em1909, o Woman’s day tornou-se oficial pelo partido socialista e organizado pelo Comitê Nacional de Mulheres, comemorado em 28 de fevereiro de 1909.

Independente da origem do dia, é preciso pensar no “oito de março” como uma data que nos remete aos séculos de lutas de muitas mulheres em todo mundo. De batalhas diárias e acontecimentos privados e cotidianos que talvez nunca façamos ideia que aconteceram.

Por isso, a importância do desenvolvimento também da chamada história regional, relatando e explanando acontecimentos que não tiveram uma proporção global, mas participam do caminho histórico da humanidade como qualquer outro acontecimento. No entanto, não podemos resumir tanto tempo de suor e lágrimas a um dia do ano. “Dia da mulher” é todo dia e a busca por direitos e dignidade não deve cessar.

. COTE, Renée. La Journée internationale dês femmes ou les vrais dates des mystérieuses origines du 8 de mars jusqu’ici embrouillés, truquées, oubliées: la clef dês énigmes .La vérité historique. Montreal: Les éditions du remue ménage, 1984.
. 8 de março — Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida” publicado pela SOF (Sempreviva Organização Feminista).
. CRUZ, Álvaro. O Direito à diferença. Belo Horizonte: Ed. Del Rey, 2005.
. TROTSKY, Leon. Historia da Revolução Russa. São Paulo: Ed. Sundermann, 2007.

A literatura e o “turning-point” da política brasileira

O conturbado momento político brasileiro ao mesmo tempo em que nos inquieta, principalmente em relação aos rumos que o país tomará, leva-nos também a importantes reflexões sobre a nossa sociedade e o seu modo de pensar.

Corrupção, mandos e desmandos, descasos e abusos nos âmbitos municipais, estaduais e federal, levantam questionamentos e um desejo de mudança por parte da população brasileira. Mas se é preciso mudar, qual direção tomar a partir de agora? A literatura pode nos ajudar nesse longo percurso a ser explorado.

Os romances de cunho realista, aqueles em que os escritores buscam energia de suas experiências ao longo da vida e, de diversas formas, representam as problemáticas das sociedades às quais pertencem, têm a possibilidade de nos tornar mais críticos, tirando-nos de nossa zona de conforto, levando-nos a questionar nossa comunidade repleta de distorções e desigualdades, independente do aparecimento de questões políticas em suas tramas.

A política em nosso território manifesta dia após dia velhos vícios que, em algumas situações, parecem travar o avanço das terras tupiniquins rumo à diminuição da desigualdade social e não apenas no aspecto da renda, mas em relação ao gênero, à raça; ao acesso à terra, à moradia, à cultura; a um melhor sistema educacional e de saúde.
Esses vícios nem sempre são revelados através da imprensa ou de forma oficial pelos “homens de poder”.

Entretanto, a ficção possibilita certa liberdade para revelar aquilo que permanece escondido e não se torna público. Além disso, lida em seus enredos com questões que dominam os debates em nossas sociedades, ou como pano de fundo ou delatadas em suas superfícies, impelindo-nos a ponderar sobre as mazelas sociais e até mesmo desenvolver uma autorreflexão mediante os episódios mais recentes no Brasil.

Segundo os dados do Banco Mundial em 2014, por meio do Coeficiente de Gini, usado para medir a desigualdade de distribuição de renda, mesmo com os significativos avanços nos últimos vinte anos, em uma escala em que obviamente nenhum país consegue atingir a igualdade total, o Brasil está na faixa de 0,5 a 0,55, considerando que a igualdade máxima é equivalente a zero e a desigualdade máxima é equivalente a um.

Logicamente, os índices nem sempre revelam a realidade e temos ainda uma incontável lista de medições como o IDH, IPH, entre tantos outros. Mas é possível deduzir que, independente dos números, por estarmos entre as dez maiores economias do mundo, teríamos condições de melhorar nossa conjuntura em diversos pontos.

Talvez, embora possa parecer uma utopia, para alcançar a transformação tão cobiçada, seja preciso que novas figuras emerjam dentro do atual quadro político. Nomes que pensem coletivamente e não apenas na preservação do poder de sua coligação, para além das fatigantes disputas entre os partidos de oposição e situação já tão conhecidos por nós. Mas o que sempre vemos é mais do mesmo.

Entretanto, o turning-point brasileiro, ou seja, nosso momento decisivo, passa exatamente por nós, cidadãos. Para além de simples protestos, é preciso clamar por uma profunda reforma política, por uma vasta modificação no sistema tributário e também previdenciário, por um aperfeiçoamento do código penal, na tentativa de garantir que os investimentos em educação, saúde, transporte, cultura, etc., cheguem a todos, sem exceção e primeiro aos que mais necessitem.

Especialmente nesse tópico a literatura nos auxilia ao apresentar uma infinidade de realidades e mundos que talvez jamais imaginássemos conhecer senão por ela. Por mais que nem sempre a ficção seja a tradução da “vívida realidade”, conseguem representar e simbolizar, no sentido em que reconstroem esse real, organizando-o e também o interpretando, tomando-lhe determinado sentido, viabilizando um sentimento de empatia, elemento tão pouco explorado nas discussões políticas.

Os acontecimentos políticos atuais propiciam a nós que talvez tenha chegado o momento de pensarmos efetivamente de forma coletiva e de colocar, quem sabe, nossas vontades mais mesquinhas abaixo das aspirações que culminarão em uma comunidade mais desenvolvida sem exceções. É a hora de entender que não estamos divididos em lados, mas somos somente um.

E não é preciso deixar nossa ideologia de lado. Ela é construída ao longo do tempo, pode ser modificada com o passar dos anos, mas reflete quem somos. No entanto, não adianta aspirar por transformação se o único motivo que nos leva a pensar isso é porque o partido A ou B, meu preferido, não está no poder e quero meus objetivos atendidos a qualquer custo e independente de outros.

Substituir nem sempre é transformar, mas se é para modificar que desta vez pensemos em nomes cujas propostas atendam nossa nação como um todo e não somente a grupos específicos. Ou então, iremos continuar reproduzindo um círculo vicioso e não chegaremos a nenhum lugar diferente desse que já nos encontramos.

Assim sendo, ainda que os romances, ficções, possam ter origens variadas quando levamos em consideração as concepções políticas e ideologias de cada escritor, essa “realidade parcialmente percebível” através dos enredos realistas pode despertar o desejo de mudança perante sociedades injustas, gerando indagações sobre as desigualdades sociais, miséria, princípios e valores que costumeiramente prevalecem sem questionamentos no decorrer dos anos.

O Centro Editor e a perseguição ditatorial

Não há dúvidas de que a literatura é um importante instrumento questionador das mazelas de nossas sociedades, assumindo um papel sedicioso, insubmisso e revoltado, principalmente em realidades opressoras e injustas.

Entretanto, em regimes ditatoriais, essa “missão” nem sempre era levada adiante de forma tranquila. Em muitas vezes, mais do que o suor das mãos dos escritores, os literatos pagaram com seu sangue ou até mesmo com suas vidas.

As editoras que se arriscavam a disponibilizar no mercado os chamados livros “subversivos” praticamente assumiam a entrada na lista negra das ditaduras militares e passavam a ser perseguidas pelos inquisidores, respaldados nos mais diversos Malleus Maleficarum que foram produzidos em dezenas de países para alertar como e quando a “caça às bruxas” deveria acontecer.

Não foi diferente com o Centro Editor de América Latina. Fundando por Boris Spivacow em plena ditadura argentina, mais precisamente em 1966 quando Juan Carlos Onganía estava no poder, a editora passou a sofrer com a perseguição governamental desde muito cedo, mas tomou força no final da década de 1960.

No ano de 1969 Onganía sanciona a Lei Nacional 17.401 que reprimia as atividades consideradas comunistas. É neste momento que a CEAL sente mais incisivamente a ação dos órgãos de repressão, principalmente a SIDE, Secretaria de Inteligência do Estado e a DIPBA, Direção de Inteligência da Província de Buenos Aires.

A coleção Siglomundo. “La historia documental del siglo XX” é, então, proibida de circular no país. A justificativa emitida pela DIPBA era de alguns dos livros e textos do compêndio continham propaganda comunista e infringiam a lei estabelecida.

Não bastasse isso, a violência passou do campo literário para os abusos físicos. Em 1974 a Alianza Anticomunista Argentina, grupo paramilitar e terrorista mais conhecido como Triple A, mas que tinha apoio velado do governo, sequestrou e assassinou um funcionário da editora, Daniel Luaces. Segundo Judith Gociol, Spivacow e Oscar Díaz reconheceram o corpo do jovem no necrotério.

Após muita pressão popular, uma eleição foi convocada em 1973 afastando temporariamente os militares do poder. Entretanto em 1976, mais um golpe foi implementado, dessa vez com o nome de Processo de Reorganização Nacional.

A partir daí, a ditadura passou a importunar sistematicamente o Centro Editor, suas publicações e seus escritores.
Na próxima semana, vamos conhecer quais ações a ditadura tomava contra a editora e quão prejudicial elas foram para o desenvolvimento da literatura na Argentina.

A contribuição para o desenvolvimento cultural e a literatura na Argentina pelo Centro Editor de América Latina é reconhecido por todos os estudiosos que se dispuseram a analisar sua história, suas coleções e os diversos livros publicados por ela. A maioria dos acadêmicos que desenvolveram suas pesquisas ponderando sobre as ações produzidas pela editora também convergem quando o assunto é a dificuldade e a perseguição imposta pela ditadura do país ao trabalho de Spivacow e sua equipe.

Com o novo golpe militar em 1976, conhecido por suas ações de assassinatos e violação dos direitos humanos, praticando o que se conhece como “terrorismo de Estado”, a CEAL passou a sofrer mais fortemente com o jugo ditatorial. Era muito comum que as instalações do editorial sofressem com atentados e ameaças que atravessavam do físico para o fiscal, tudo visando dificultar ao máximo a publicação das obras.

As acusações, em geral, eram sempre as mesmas: publicação e venda de material subversivo. Em 1978, a promulgação da resolução 2977 do Ministério da Educação funcionou como uma espécie de Index Librorum Prohibitorum ao divulgar uma extensa lista de livros que estavam proibidos ou não eram recomendados. A coleção “Historia presente”, publicada pela CEAL, foi indexada por violar a resolução vigente.

No mesmo ano, agentes municipais e o Corpo de Cavalaria de Buenos Aires invadiram e trancaram os depósitos editoriais do Centro Editor. Na mesma ocasião, quatorze funcionários foram presos. Spivacow apresentou-se à Justiça e declarou ser o único responsável pelas acusações, solicitando que os trabalhadores fossem soltos.

Segundo o decreto 2322, a coleção referida acima selecionava cronologicamente determinados fatos da história mundial, principalmente da Argentina e América Latina, com o intuito de fazer apologia ao terrorismo, relatando diversas sublevações armadas.

Os materiais mais questionados pelos militares eram os livros que, segundo os próprios, exaltavam o marxismo, revoluções socialistas, movimentos operários, violência anti-imperialismo e organizações subversivas como a Frente Sandinista de Liberación Nacional, Movimiento de Liberación Nacional Cubano, Guerrilla Vietnamita, Revolución Socialista Peruana.

A punição pela impressão e divulgação de tal material foi o estarrecedor episódio da queima de um milhão e meio de exemplares do Centro Editor no ano de 1980, em um terreno baldio na rua Ferré, no Bairro de Sarandí, Buenos Aires, foi tão cruel quanto o assassinato de Luaces, então funcionário da empresa, pela Triple A. Outras queimas foram colocadas em prática em Córdoba e Rosario.

Somente com o final da ditadura em 1983 as perseguições cessaram, mas a ferida aberta pelos militares foi muito profunda. Nos anos que lhe restaram, antes da falência econômica e o consequente fechamento em 1995, a CEAL continuou a lutar bravamente para levar “livros para todos” e publicar “mais livros para mais”.

E nem mesmo a ditadura foi capaz de impedir que esse compromisso estabelecido nos longínquos anos de 1960 por Boris Spivacow fosse realizado.

O Centro Editor e os estudos africanos — Parte II

No texto anterior, fizemos uma breve introdução sobre a importância do Centro Editor de América Latina na produção e divulgação dos textos e trabalhos sobre o continente africano na Argentina, principalmente os de caráter revolucionário e ideologias de esquerda.

Conforme nos indica Luis Beltrán, globalmente falando, o processo de incorporação da África Subsaariana e da América nas produções textuais à nova ordem mundial “euro-hegemônica” se desenvolveu de forma forçada e mediatizadamente, como simples suplementos dos impérios europeus.

No século XVI se produziu uma espécie de triangulação pela qual estavam vinculados o centro imperial e as periferias do comércio escravista (África) e da exploração colonial (América). E assim se seguiu até o século XIX quando as nações americanas se tornam independentes e as africanas passam a ser ocupadas colonialmente até os anos de 1960–1970, processo denominado de Neocolonialismo.

Se os principais tópicos durantes os séculos XVI-XIX centravam-se no tráfico negreiro e a escravidão ibero-americana, no século XIX com a proibição do primeiro e a abolição da segunda, além da reorganização das relações hierarquizadas norte-sul, isolaram-se ambas até o que o Beltrán chama de “tímido reinício” dos contatos com as independências subsaarianas.¹

Com a descolonização a partir do final da Segunda Guerra Mundial, novas perspectivas analíticas começam a se desenvolver e na Argentina, esses trabalhos começam a ganhar espaço através das publicações desenvolvidas pelo CEAL.

Para além dos estudos já relatados no texto anterior. Vela de Ríos continua com seu protagonismo ao publicar em 1972 o texto “Àfrica, de la liberación al presente” na inclopédia “En Transformaciones. Enciclopedia de los grandes fenómenos de nuestro tiempo”.

A coleção alcançou os 110 títulos e abarcou temas como a tortura, os intelectuais, a condição das mulheres e até mesmo análises psicológicas. Participaram dela grandes nomes como María Rosa Neufeld e Néstor García Canclini.

Já a coleção “Capítulo universal. La historia de la literatura mundial”, em seu número 78 abordou a literatura africana de autoria de escritores negros, magistralmente desenvolvido por Estela dos Santos, entre outros.

Já na coleção “Historia del movimiento obrero” duas obras de Marta Cavilliotti foram editas: “África del Norte: liberación nacional y movimiento obrero” e “África Negra: movimiento obrero y liberación nacional del Sahara al Zambezi”.

Na compilação “En Transformaciones del Tercer Mundo”, centrando-se em publicações com temáticas sobre a Asia, África e América Latina, o livro “Asia y África contra el colonialismo”, de Diana Guerrero e Conrado Ceretti, além de “El presente de África”, de Carlos Martínez.

Entre tantas outras coleções desenvolvidas podemos encontrar outros livros de María Elena Vela de Ríos, principalmente “La revolución africana” de 1970. De Miguel Ángel Palermo temos “Trabajos en metal”, “Arte popular africano” e “Arte popular africano. La escultura” que renderam um tomo sobre as artes populares africanas.

En 1971, Vela de Ríos, sem dúvida uma das maiores estudiosas argentina sobre a África, publicou “Lumumba” em que analisa a vida de Patrice Lumumba — um dos maiores expoentes congoleses contra o Neocolonialismo que mais tarde se tornou político. A autora ainda publicou uma biografia sobre Macolm X e em 1973 a obra “La rebelión de los Mau-Mau” e “La batalla de Argel”.

1. Cf. BELTRÁN, Luis. Consideraciones sobre los estudios afroamericanos y africanos en Iberoamérica. In: LECHINI, Gladys (comp.). Los estudios afroamericanos y africanos en América Latina — Herencia, presencia y visiones del otro. Buenos Aires: Consejo Latino Americano de Ciencias Sociales (Clacso), 2008, p.411.

O Centro Editor e os estudos africanos

A importância cultural do Centro Editor de América Latina como difusor cultural dentro da Argentina e América Latina é reconhecida por todos os estudiosos da literatura e analistas sociais que se propuseram a desenvolver pesquisas e trabalhos sobre a editora. Entretanto, nem sempre a sua atuação difusora das temáticas sobre as africanidades é destacada.

Desde 1966, quando Boris Spivacow funda o centro de editoração, uma das pautas de discussão entre os intelectuais que constituíram o grupo de apoio a ele nessa empreitada era a de incentivar e divulgar estudos africanos e afro-americanos na Argentina. Muitos acadêmicos são enfáticos ao relatar que o CEAL foi pioneiro nessa tarefa tão importante para a literatura platina.

É preciso ressaltar que a narrativa até aquele momento, segundo a estudiosa Matínez-Echazábal, era predominantemente branca e não valorizava a mestiçagem ou os negros. Pode-se compreender tal ação principalmente devido a busca da construção de um passado legitimador para se pensar a nação Argentina após sua independência, valorizando assim uma literatura, acadêmica ou não, branca.

Embora seja importante lembrar que não devemos pensar a produção dos textos durante esse período como um bloco único, principalmente pelos diferentes contextos históricos em que essas reflexões foram desenvolvidas.

A coleção Siglomundo — La historia documental del siglo XX, desenvolvida pelo Centro e que teve sua circulação proibida pela ditadura de Juan Carlos Onganía através da Ley Nacional 17.401 em 1969, já trazia textos que abordavam conteúdos relacionados à África.

Norberto Vilar publicou dois escritos, sendo o primeiro “África ocupada”, e o segundo “África colonizada”, com um material ilustrado sobre a guerra da Etiópia. Carlos Martínez também contribuiu ao desenvolver “África: independencia y neocolonialismo”, debatendo questões de um contexto ainda muito recente.

Depois desta publicação, surgiram muitas outras como a coleção “Biblioteca fundamental del hombre moderno” que foi dirigida por Beatriz Sarlo desde 1971 e alcançou os 109 títulos. Sobre questões africanas podemos encontrar um texto de Francisco Ferrara que deu origem à obra “Asia y África: de la liberación nacional al socialismo”, María Elena Vela de Ríos também produziu “África, botín del hombre blanco” em 1972 e outra compilação de textos que o mesmo Ferrara elaborou com o nome de “Revolucionarios de tres mundos”, com colaborações também de Vela de Ríos, Noel Barbú e Carlos María Gutiérrez.

A coleção citada acima também trabalhou como a revolução mexicana, a revolução russa, movimento operário, política e sociedade com textos mais voltados para a ideologia esquerdista, embora nem todas as obras carregassem esse caráter.

Na próxima semana, continuaremos comentando um pouco sobre algumas publicações que abordaram a temática africana e afro-americana, principalmente durante a década de 1970 e a as importantes contribuições de María Elena Vela de Ríos que prosseguiu trabalhando com o enfoque das africanidades.

Como Bourdieu pode intensificar sua experiência com os livros

Para as pessoas que não estão acostumadas com o ambiente acadêmico ou com a leitura de livros ou artigos provenientes desse meio, ouvir o nome de Pierre Bourdieu pode causar calafrios. Mas até mesmo para os leitores de final de semana ou aqueles que consomem a literatura como um prazeroso entretenimento, Bourdieu tem algo simples a comunicar e que pode intensificar as experiências de leituras.

Conforme nos indica o sociólogo francês, que faleceu em 2002, os textos literários podem ser analisados, entre tantas outras formas, através do contexto social de seus escritores. O que estava acontecendo na época em que o literato estava criando sua obra, como por exemplo, as condições econômicas, política e sociais.

Se tivermos certo distanciamento da época em que o texto foi publicado, também é muito interessante verificar a recepção do livro, quais foram as opiniões da crítica literária e dos próprios leitores quando determinado romance foi lançado.

“(…) a análise científica das condições sociais da produção e da recepção da obra de arte, longe de a reduzir ou de a destituir, intensifica a experiência literária(…)”¹.

Embora Bourdieu esteja direcionando suas palavras aos pesquisadores e estudiosos, suas indicações são extremamente valiosas para nossas leituras cotidianas. Segundo ele, o resultado que vemos nos livros não brota de uma imaginação desconexa dos acontecimentos ao seu redor — por mais que os escritores tenham grande liberdade e utilizem-se da inventividade — ela se localiza no interior de um universo, que delineia as práticas e o pensamento dos escritores.

Muitas vezes a crítica que o autor pretende fazer, uma mensagem que intenta transmitir, entre outras ações, podem estar acobertadas. Relatos e testemunhos de um determinado período podem estar ali sem ser percebidos pelos leitores, tentando comunicar algo que talvez não fosse permitido ou que o próprio escritor quisesse obscurecer, buscando uma aproximação da realidade vivida até mesmo em textos de ficção científica que apresentem um contexto futurista.

Portanto, entender esse ambiente que cerca os literatos e a produção das obras, pode possibilitar uma percepção mais aprofundada do enredo e nos levar a questionar determinados caminhos tomados pela trama, engrandecendo nossa análise diante do livro e nos suscitando novas indagações sobre nossa vida em sociedade.

¹BOURDIEU, Pierre. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.14.

Quimeras literárias, realidades urdidas

Roda, pólvora, telescópio, prensa de Gutenberg, lâmpada, telefone, televisão, radar, satélite e internet. Todas são, reconhecidamente, grandes invenções da humanidade, transformaram a vida de nossas sociedades de maneira singular e, provavelmente, em uma lista com os grandes inventos da história, ocupariam lugar cativo para a maioria das pessoas.

Porém, maior das invenções, mas nem sempre recordada, é a Literatura. Épica, lírica ou dramática, como especificavam os filósofos da Grécia antiga, ficcionais ou realistas, a arte de compor e expor os escritos nos faz atingir veredas inimagináveis com diretrizes infinitas.

Através dela, simplesmente tudo é possível. Até mesmo o que ainda não existe, as criativas mentes inventivas dos literatos são capazes de gerar. E para aquilo que posto está, pode-se recriar ou recontar. Já o que escondido fica, deliberadamente ou não, as Letras podem, nem sempre de forma axiomática, desvelar.

A Literatura, ocasionalmente, ludibria, mas sempre há verdade por trás das mentiras. Contudo, não mente como a gente quando quer enganar alguém. Ela invenciona, enreda, trama. Nela, “mendaci ne verum quidem dicenti creditur” não tem vez porque até mesmo o mentiroso revela o oculto com veracidade.

É caso dos romances desenvolvidos na América Latina principalmente nas décadas marcadas pela rigidez das ditaduras militares. Nesse período, a ideia de que a função mais importante da literatura, ainda que contasse com elementos de ficção, era documentar e eternizar a verdadeira vida foi consolidada.

Revelar a sociedade ocultada e dissimulada pelos governos e as elites políticas era algo primordial. Oferecia-se uma oportunidade de cavar até as entranhas desses regimes e apresentá-las de modo matizado, na tentativa de escapar às garras da censura e, ao mesmo tempo, despertar os cidadãos para a cruel verdade.

Como Vargas Llosa demonstra no livro de Claudio Magris: “uma sociedade impregnada de literatura é mais difícil de manipular desde o poder e de submeter e enganar, porque esse espírito de desassossego o qual desenvolvemos depois de enfrentarmos a uma grande obra literária, cria cidadãos críticos, independentes e mais livres do que aqueles que não vivem essa experiência”¹.

De todas as criações humanas, sem dúvida, a construção das realidades pela Literatura é uma engenhosidade extraordinária. As quimeras literárias, entendendo-as aqui como fantasias e ilusões criadas pelos literatos, ajudam-nos a compreender os caminhos e decisões que nossas sociedades desenvolvem.

Através dessas verdades fugidias conhecemos uma parte importante da totalidade de nossa realidade, escancarando erros e incertezas, mas acima de tudo, oportunizando a mudança e o aperfeiçoamento de nossos modos de viver e pensar.

¹ VARGAS LLOSA, Mario. Los vasos comunicantes: novela y sociedad. In: MAGRIS, Claudio; VARGAS LLOSA, Mario. La literatura es mi venganza. Barcelona: Seix Barral, 2011, p. 25–26.

Contreras, um escritor não profissional

Gonzalo Contreras é o típico escritor que decide suas próprias regras de escrita sem se importar completamente se o trabalho que iniciou será publicado, atrairá um grande público leitor ou venderá muito.

Nascido em Santiago, capital do Chile, no ano de 1958, Contreras se afirmou ao longo de sua carreira literária como um dos grandes escritores contemporâneos latino-americanos e, sem dúvidas, um nome essencial quando se fala nos escritores dos anos de 1990.

Seu primeiro livro publicado foi La danza ejecutada, cuentos, autoedición no ano de 1986 e constitui-se em uma compilação de contos e relatos. Em seguida, publicou o romance que o demarcaria como um escritor de talento, La ciudad anterior, vencedor do prêmio da Revista de Libros de El Mercúrio em 1991, publicado no mesmo ano.

No ano de 1995 publicou El nadador, vencedor do Premio del Consejo Nacional del Libro y la Lectura. Entretanto, atingiu o ápice da técnica e versatilidade com o romance El gran mal, publicado em 1998 e vencedor do mesmo prêmio que havia recebido anteriormente.

Conhecido por seu estilo direto, o chileno, talvez, se diferencie de alguns outros bons escritores de seu tempo por não se importar muito em representar grupos ou classes sociais em suas obras, prefere manter o foco nas características individuais de seus personagens e problematizá-las ao longo do enredo.

Isso não quer dizer que suas obras escapem aos contextos de escrita e aos contextos sociais abordados nas tramas dos romances e contos. Eles estão ali, diluídos, incitando o leitor a identificar algo maior, para além dos próprios traços apresentados.

Logicamente, a crítica literária costuma afirmar que boa parte de seus personagens são representantes da alta classe e homens bens sucedidos, mas Contreras emerge desse tipo de limitação imposta pelos críticos para mergulhar nas frustrações e embates emocionais, revelando uma desiludida realidade.

No fim, não importa muito as questões sobre grupos sociais, embora estejam ali, mas a individualidade de cada personagem que se somará ao enredo e à conjuntura do livro, que, por sua vez, pode ser analisada no contexto de nossa realidade.

Embora sempre seja incluído como um integrante do grupo geracional Nueva Narrativa Chilena de los noventa, Contreras nunca escondeu que sempre se portou como um escritor fora dessa “classificação”: “Eu não ando com nenhuma bandeira da Nueva Narrativa. Eu sempre fui uma república independente”, proferiu o escritor em uma entrevista ao jornal La Tercera em setembro de 2013. Ainda assim, jamais deixou de reconhecer a importância dos escritores desse grupo.

Com uma literatura insolente e sem rodeios, Contreras transmite uma finalidade clara: é preciso reflexionar mais, do que simplesmente entreter. Não por acaso, ao longo de sua carreira — ainda ativa — nunca se preocupou com os hiatos de suas publicações. Se não há algo importante a dizer e contribuir, é melhor que não seja dito!

“Se alguma vez nos anos noventa eu considerei a ideia de escritor profissional, essa ideia me repele cada dia mais. Esse escritor que apresenta um romance a cada dois anos, tendo algo a dizer ou não; um romance do qual você pode se arrepender, é algo que não quero nunca para mim.”

A crítica literária e o surgimento dos intelectuais literários na América Latina

Na América Latina o florescimento dos intelectuais da literatura aconteceu por volta da década de 1950. Isso porque a atividade literária e a intervenção intelectual pareciam estar interligadas. Na verdade, desde o final do século XIX até a metade do século XX, é possível afirmar que muitos dos que se entendiam como intelectuais eram originários da literatura, expressando-se através dos romances, ensaios, poesias, etc.

Sem dúvidas, segundo Gonzalo Aguilar, o termo “intelectual da literatura” designa àquele que exercia originalmente a atividade como crítico literário e que aos poucos se projetou como figura pública, aproveitando-se do seu reconhecimento literários e da sua capacidade para interpretar com um “método e um arsenal conceitual sofisticado” os textos e dar a eles uma significação política, cultural e social.

Com o passar dos anos, esses críticos literários e também literatos que não necessariamente exerciam atividade crítica interviram e opinaram em assuntos importantes para as suas sociedades, principalmente pelo fato, confirmado por escritores do boom latino-americano, dos governos ditatoriais na realidade latino-americana não censurarem com veemência os romances.

Possibilitando, portanto, que estes tratassem de temas “impensáveis” dentro do contexto militar e alertassem os cidadãos através das tramas.

Aguilar, afirma mais uma vez, que este tipo de intelectual é, na verdade, resultante de uma junção de fatores que surgiram no século XX, entre eles a consolidação e modernização das universidades enquanto criadoras de um saber humanístico; o crescimento do mercado dos bens simbólicos; um maior acesso à leitura; o surgimento de uma disciplina específica da crítica literária e, principalmente o protagonismo crescente que desempenharam as ficções narrativas na busca por uma definição da identidade latino-americana.

Atualmente muito se fala sobre uma crise da crítica literária, mas esse é um outro tema. Na verdade, importante é destacar que por tantos anos esses indivíduos — Borges, Ángel Rama, Alejo Carpentier, Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Ángel Rodríguez Rea, Miguel Oviedo, etc. — se preocuparam e contribuíram para suas respectivas sociedades enquanto formadores de opiniões.

Sem dúvidas, a crítica literária ocupou nas décadas de 1950 e 1960 uma singular posição de influência, possibilitando reflexões críticas, contribuindo para a formação de cidadãos responsáveis, através também, da literatura.