Juan Gelman, o poeta da dor

Um dos maiores poetas argentinos, Juan Gelman, nascido em Buenos Aires em 1930, faleceu dia 14 de janeiro deste ano na Cidade do México. Foi ganhador de grandes prêmios mundiais de literatura, entre eles o Premio Cervantes em 2007, o Premio de Literatura Latinoamericana y del Caribe Juan Rulfo em 2000 e o prêmio Pablo Neruda em 2005.

Gelman, desde muito cedo, começou a escrever os seus poemas, mais precisamente aos oito anos de idade, com onze, publicou o seu primeiro na revista Rojo y Negro, em 1941. Além de periodista, foi apoiador da Revolução Cubana de 1959, participou das FAR, Fuerzas Armadas Revolucionarias na Argentina, no final da década de 1960 e dos Montoneros, uma organização guerrilheira de esquerda peronista que implementou luta armada entre 1970 e 1979.

Suas principais obras são Violín y otras cuestiones (1956) El juego en que andamos (1959), Velorio del solo (1961), Gotán (1962), Cólera buey (1964), Hacia el sur (1982), Incompletamente (1997), Valer la pena (2001), País que fue será (2004), entre outros.

Juan Gelman sempre desenvolveu uma poesia dedicada às belezas da vida, à simplicidade, ao amor e à paixão, mas de forma avassaladora e de inconformidade. Mesmo trabalhando temáticas como essa, ficou conhecido como o expressionista da dor ou poeta da dor, por assumir uma escrita resiliente, ou seja, capaz de se colocar no lugar de outros, se compadecer com a dor alheia.

“Al amor, sueño eterno y poderoso, el destino furioso lo cambié.” (Rojo y Negro, 1941)

Podemos incluir o escritor como um literato engajado que também desenvolveu em sua escrita preocupações com a justiça social, igualdade e maneiras de relatar as mazelas de seu país ou de outros governos ditatoriais.

“Ha muerto un hombre y están juntando su sangre en cucharitas
querido Juan, has muerto finalmente.
De nada te valieron tus pedazos
mojados en ternura.
Cómo ha sido posible
que te fueras por un agujerito
y nadie haya puesto el dedo
para que te quedaras…”
(Gotán, 1962)

Perseguido e ameaçado de morte pela Aliança Anticomunista Argentina, precisou se exilar em 1975, rumando à Europa. No ano seguinte, seus filhos Nora Eva e Marcelo Ariel, além de sua nora Claudia García, grávida, foram seqüestrados a mando do governo militar.

Nascida no cativeiro, sua neta foi levada a Montevidéu de forma clandestina e lá foi criada. Seu filho foi torturado e morto, sendo seu corpo encontrado em 1990 em um tambor com cimento. Foi assassinado com um tiro na cabeça. Após dar a luz, Claudia também foi assassinada.

Depois da tragédia, Gelman passou a escrever cartas, ensaios, artigos, denunciando violações dos direitos humanos cometidas na Argentina pela ditadura. Voltou para o país, foi preso e com a ajuda de protestos intelectuais, como dos escritores Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, entre outros, foi libertado mediante pagamento de fiança.

Juan Gelman mudou-se para o México, onde faleceu. Deixou a marca de esperança por um futuro melhor para o mundo e um legado de luta contra as injustiças, sejam elas sociais, econômicas ou políticas. Partiu antes de ganhar um prêmio Nobel — merecidamente em minha opinião –, mas suas lições de vida e literatura são maiores que isso.

O caso Padilla: um dos mais relevantes poetas cubanos do século XX

Heberto Padilla foi um grande escritor cubano e um dos mais relevantes poetas do século XX. Nascido em Puerta del Golpe, no ano de 1932, é conhecido por seus poemas, mas se propôs a escrever também alguns romances.

Entre suas obras poéticas de maior destaque estão Las rosas audaces (1949), Fuera del juego (1968), Provocaciones(1973), El hombre junto al mar (1981) e Un puente, una casa de piedra (1998). Já suas obras narrativas publicadas foram El buscavidas (1963), En mi jardín pastan los héroes (1981) e Prohibido el gato (1989).

Do ponto de vista literário, Padilla é analisado por estudiosos como um escritor de poemas conversacionais. Esse tipo de poema tem como característica o uso da linguagem coloquial, embora ela nem sempre apareça em todos os fragmentos, se apresentando como um diálogo entre a primeira pessoa com a terceira pessoa do singular.

Sua intenção pode ser informativa ou de alerta, revestida de alguns extra-elementos, como por exemplo, os que se fazem presentes nos textos de periódicos. Geralmente está intimamente conectada com a realidade política e social da sociedade da qual pertencem os personagens ou tema.

Padilla sempre esteve ao lado da Revolução Cubana, era um dos grandes apoiadores de Fidel Castro, justamente por isso dedicou alguns anos de sua vida para trabalhar e conhecer a União Soviética na década de 1960. Porém, em 1966 voltou de lá com uma outra visão sobre as ações desenvolvidas pelo governo soviético, desencantando-se com a esquerda.

No ano de 1968, o escritor cubano publicou uma obra chamada Fuera del juego. Nela, em tom crítico, relatava as mazelas do governo de seu país e reprova suas ações. O livro recebeu o Premio Julián del Casal, de la Unión de Escritores y Artistas de Cuba (UNEAC), por decisão unânime dos jurados.

No entanto, a direção da instituição pressionou os jurados para que o voto fosse modificado em uma reunião posterior e a publicação do texto vencedor fosse revogada. A decisão foi mantida, mas os diretores incluíram um nota relatando que o conteúdo do texto era ideologicamente contrario às intenções da Revolução.

Já muito criticado, em 20 de março de 1971, após o recital de sua nova obra Provocaciones na Unión de Escritores, foi preso juntamente com sua esposa, a poetisa Belkis Cuza Malé, sob a acusação de subversão contra o governo cubano.

O fato gerou revolta em intelectuais e escritores no mundo inteiro. Cartas e protestos foram realizados por figuras importantes da literatura como Jean-Paul Sartre, Julio Cortázar, Simone de Beauvoir, García Márquez, Marguerite Duras, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Mario Vargas Llosa, entre tantos outros.

Além dos protestos, muitos escritores abandonaram os ideias revolucionários, como Octavio Paz, Mario Vargas Llosa, Susan Sontag, etc. O fator principal citado na maioria dos casos era de que o socialismo cubano já não garantia mais o respeito à liberdade de expressão e à dignidade dos escritores, assim também como o direito à crítica, que veio a garantir um dia.

Não bastasse isso, após trinta e oito dias de reclusão, Padilla foi obrigado a redigir e ler novamente na Unión de Escritores uma retratação chamada Autocrítica, em que renegava suas críticas feitas anteriormente.

Além disso, as declarações de depreciação, feitas por Fidel Castro sobre os intelectuais e a literatura no Congresso Nacional de Educación y Cultura, também 1971, levaram alguns escritores a crer que o socialismo já não permitia a possibilidade de justiça social e, de forma alguma, respeitava a dignidade dos indivíduos e muito menos a liberdade de imprensa.

Muito embora, ainda existisse outro fator relevante: a proibição de entrada em Cuba, por tempo indeterminado, imposta por Fidel Castro aos escritores latino-americanos que viviam na Europa.

Padilla tentou inúmeras vezes receber a permissão de Cuba para se exilar. Após pressão internacional e intervenção do senador americano Edward Kennedy em 1980, conseguiu partir para os EUA.

Manteve-se escrevendo, participando de encontros literários e políticos. Mas como sua esposa gostava de lembrar, desde a prisão, Padilla já não era o mesmo, principalmente porque o escritor passou a receber críticas também de opositores ao regime por ter se pronunciado contra o embargo econômico a Cuba na segunda metade de década de 1990.

Em 1995 Cuza Malé separou-se de Padilla. Com graves problemas de saúde, em 1997, sofreu um infarto, restringindo fortemente suas atividades literárias, embora tenha continuado a dar aulas. Em 25 de setembro de 2000, veio a falecer em Auburn, Alabama.

Simplesmente… Simone de Beauvoir

É difícil descrever Simone de Beauvoir em relação a suas atividades porque ela não foi apenas uma escritora. Foi, sem dúvida nenhuma, personagem marcante na luta pelos direitos das mulheres, mas não há como demarcá-la somente como feminista porque seus textos literários, filosóficos, romances ou ensaios, são fontes importantes e enriquecedoras para entendermos nosso tempo.

Nascida em 9 de janeiro de 1908 em Paris, Simone Ernestine Lucie Marie Bertrand de Beauvoir desenvolveu suas concepções dentro da escola filosófica existencialista, voltando seu pensamento para o sujeito humano, responsável por si mesmo, considerando seus sentimentos e vivências, na busca e garantia de uma condição de liberdade.

Segundo Márcia Regina Viana: “No pensamento de Simone de Beauvoir, são observados dois pilares fundamentais de sustentação: um positivo, que é a assunção da liberdade e um negativo, que é a demissão desta condição de ser livre.

A trajetória humana constitui-se como resultado da dialética íntima entre estas duas escolhas que o ser pode realizar: constituir-se um sujeito livre ou demitir-se dessa liberdade. O ser é, quando é livre para ser. Entretanto, quando escolhe não ser, demite-se de sua liberdade, mas continua existindo, sendo alguma coisa”.

Como romances, seus principais livros são L’Invitée (A convidada) de 1943, Le Sang des autres (O sangue dos outros) de 1944 e Les Mandarins (Os mandarins) de 1954. Já em relação aos ensaios, o mais conhecido do campo filósico é Le Deuxiême Sexe — les faits et les mythes (O Segundo Sexo) de 1949, além de Le Sang des autres (O sangue dos outros) de 1945 e La Vieillesse (A Velhice) de 1970.

Suas obras de caráter autobiográficos também ganharam muito destaque, como Mémoires d’une jeune fille rangée(Memórias de uma moça bem-comportada) de 1958, La Force des choses (A força das coisas) de 1963 e Tout compte fait (Tudo dito e feito) de 1972.

Imersas no pós-guerra, suas obras revelam uma ânsia pela consolidação da liberdade e individualidade humana. Além da liberdade, outros dois pontos conhecidos são essenciais para compreender seus textos: a ação e a responsabilidade individual, que, muitas vezes, se traduziam como proposições contraditórias, paradoxais.

Mas não somente isso, ao longo de sua vida desenvolveu pensamentos e críticas sobre o papel da mulher na sociedade, a postura e conduta dos indivíduos perante os idosos, assim como questões políticas, ideológicas e sociais, embora essas três estivessem sempre interligadas.

Sua obra o Segundo Sexo é considerada um ponto-chave para o feminismo, por desenvolver elementos importantes, de embasamento para o movimento, em que a escritora aborda a situação das mulheres ao longo da história, como eram vistas e de que forma poderiam lutar por mais liberdade, desenvolver um papel primordial dentro de suas sociedade.

Já o livro Os Mandarins, considerado por muitos sua melhor obra, reflete o período em Paris após a Segunda Guerra Mundial, os embates ideológicos e a temática feminista também, relatando a vida de um casal de escritores, muito provavelmente Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, com quem viveu boa parte de sua vida uma relação aberta.

Estavam juntos, mais isso não os impedia de se relacionar amorosamente com outras pessoas de forma clara. Inclusive, não os impedia também de fazer viagens juntos com seus respectivos amantes, mas essa é uma outra história.

Por fim, embora seja difícil descrevê-la, Simone de Beauvoir é um arquétipo de personagem memorável, universal e imortal, que quando se fala sobre ele, já vem à mente toda uma história, características marcantes e situações excêntricas.

Apenas seu sobrenome já nos remete a uma série de temas como a literatura, liberdade, feminismo, existencialismo, etc. E diante de tudo isso, pouco importa defini-la, importa mesmo é apreciá-la.

Novo ano, velhos problemas: pequeno retrato da leitura no Brasil

Um novo ano chegou e o desafio de tornar o Brasil solidamente um país de leitores continua. O Instituto Pró-Livro tem desenvolvido em excelente trabalho, preocupando-se cada vez mais em agir para a população brasileira se aproxime cada vez mais da literatura e, o principal, que essa seja uma atividade cotidianamente prazerosa.

Desde 2001, o Instituto, em parceria com o Ibope, vem desenvolvendo um grande projeto de pesquisa com a intenção de traçar o perfil dos brasileiros quando o tema é leitura. De lá para cá, três grandes análises foram divulgadas com importantes questionamentos, incluindo os anos de 2008 e 2012.

Na terceira edição, com dados de 2011, o documento revela que o ato de ler aparece como a sétima atividade que a população faria em seu tempo livre. Em primeiro, como era de se esperar, está assistir televisão. No estudo anterior, a porcentagem era de 37%, caindo para 28%. Navegar na internet aparece logo atrás, mas a tendência é que no próximo estudo, ultrapasse a apreciação dos livros.

Em relação à leitura entre os brasileiros, é preciso destacar as definições: “Leitor é aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses”. E, “Não-leitor é aquele que não leu, nenhum livro nos últimos 3 meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12”. Levando-se em consideração a data da pesquisa desenvolvida em todo o país.

Os dados informam que o Brasil detém 88,2 milhões, ou seja, cerca de 50% da população naquele período. As mulheres leem mais que os homens e, fomentados pelas escolas, a maior porcentagem de leitores contra não-leitores por idade está entre os cinco anos até os 17. A partir dos 25 anos, aqueles que não leem já superam os leitores.

Sob o ponto de vista dos setores sociais, as classes D e E, tomam pouco contato com a leitura, mas o índice já é alarmante com o grupo C. Ao mesmo tempo que o Sudeste concentra a maior porcentagem de leitores, também açambarca a maioria dos não-leitores. A média de livros lidos em geral é de 1,85 nos últimos 3 meses, apenas 0,82 foram lidos inteiramente. Portanto, a número de dois livros não chegou a ser alcançado.

Em relação aos gêneros mais lidos, primeiro a Bíblia, posteriormente, Livros Didáticos, Romances, Livros religiosos, Contos, etc. Ensaios e ciências ocupam as colocações de baixo.

Enfim, há uma série de dados que muito nos revela sobre o “quadro de leitura” no Brasil, entretanto, o mais alarmante é que as pessoas simplesmente preferem não ler por falta de tempo ou interesse. E quando analisamos os principais influenciadores no processo de leitura, vemos citados os professores e as mães.

Com essas informações precisamos desenvolver políticas de incentivo à leitura nas escolas, mas a obrigatoriedade dos livros tem gerado desinteresse aos alunos. Dessa forma, precisamos encontrar mecanismos para as crianças desde muito novinhas, tomem contato com a leitura e isso deve começar em seu ambiente familiar.

É essencial que os pais trabalhem conjuntamente nessa atividade. Enquanto seus filhos não sabem ler, é preciso que se leia para eles, as crianças podem ser alimentadas nesse quesito simplesmente apenas vendo que seus pais estão lendo constantemente.

E então, em um segundo instante, cabe ao professor estimular a leitura nos pequenos, de preferência utilizando-se de associações positivas, psicologicamente falando, desenvolvendo situações que ficarão associadas com o prazer e não com a irritação ou chateação.

Outro ponto é que as crianças quase nunca são presenteadas com livros e a maioria dos leitores foi taxativa em afirmar que ganhar obras literárias exerceu grande influência no interesse pela leitura. Quase todos nós concordamos que quando éramos menores, se o presente não fosse brinquedo, era bem chato. Mas que tal oferecer um brinquedo e um livro? Logicamente é preciso fazer uma escolha certa e atrativa.

O acesso à biblioteca é relevante, sem dúvida nenhuma. Ele nem sempre é garantido e quando é, não parece ser algo atrativo. Associá-la à estudo e pesquisa não tem sido positivo para àquele que ainda não leem ou fazem isso de forma bem reduzida. É preciso outro tipo de associação.

Mas em tempos de internet a todo vapor, é preciso começar a pensar que as bibliotecas devem se tornar centros de leitura também on-line. Conteúdos podem ser disponibilizados de forma não física, ferramentas interativas e compartilhadoras podem ser utilizadas também. Por que não ouvir música em um fone, enquanto lê, no prédio da biblioteca de sua cidade? É apenas um exemplo e, obviamente, não estamos falando academicamente aqui.

Enfim, não há mágica, mas é preciso que o contato com os livros aconteça desde cedo e em situações agradáveis. O foco principal é “fazer o indivíduo ler”, mas é possível fomentar a literatura, ainda que o prazer pela leitura não tenha sido plenamente encontrado. Utilizar-se da mídia, da internet para divulgar vídeos, entrevistas, músicas, chats interativos com grandes escritores, festivais, games, cinema, etc.

As políticas também precisam ser concentradas respeitando a cultural regional dos leitores e garantir acesso às atividades culturais a todos os grupos sociais, enfatizando determinadas ações, que devem ser diferentes conforme as necessidades de cada comunidade, evitando assim gastos exorbitantes em um lugar onde a maioria tem grande contato com livros e pouco investimento onde é mais necessário.

Livros: uma nação que lê pouco

Não é um assunto relativamente novo, mas quando consideramos todos os habitantes do Brasil, descobrimos que esta não é uma nação que costuma ler muitos livros. Obviamente exceções não faltam, inclusive o ambiente desta revista é uma das exceções, onde encontramos autores e leitores que leem muito.

No entanto, não há como fugir deste problema. Segundo dados do Ministério da Cultura divulgados no artigo Dia do Leitor, em 06 de janeiro de 2012, a média anual de leitura é de 1,3 livros por pessoa, segundo o Instituto Pró-Livro. O governo brasileiro quer subir essa média para 4 livros.

Embora esse pequeno número seja alarmante, um outro dado que me surpreendeu veio da Fundação das Biblioteca Nacionais, segundo a FBN, existem no Brasil 96 milhões de leitores e apenas 30 milhões compram livros. Acreditava que esse número de compradores de livro não fosse nem 15% destes números divulgados.

Existem ações já implementadas desde o ano passado e outras que ainda serão. Uma delas é o cadastramento das editoras pela FBN, visando um barateamento no preço dos livros, já são 10 mil títulos passíveis de serem comercializados a um pequeno valor, R$ 10.

O Ministério também iniciou a modernização e o aumento de acervo de algumas bibliotecas públicas do país com um investimento de 40 milhões. Vale ressaltar também que ente as ações desenvolvidas desde 2011 está a construção de 340 bibliotecas nas Praças de Esporte e Cultura.

Vejo com bons olhos todo este investimento, embora seja bem pequeno comparado a outras áreas, mas o grande problema está no estímulo, no prazer à leitura e isso precisa ser muito trabalhado nas pré-escolas e principalmente dentro das famílias.

Ainda que seja algo utópico, pais leitores têm filhos leitores, principalmente se houver estímulo dentro da sala de aula. E então, esses investimentos serão de grande serventia, pois conheço bibliotecas municipais que o movimento é extremamente pequeno e os livros só não estão às traças porque, pelo menos, existe cuidado com eles.

Acredito também que a internet e a possibilidade da leitura de livros digitais podem contribuir para o aumento da leitura, mas esse aumento precisa ser acompanhado de “qualidade da leitura”.

Não basta ler qualquer livro e neste ponto acabo “puxando a sardinha para o meu lado”, pois os livros de história deveriam ser mais lidos. Não falo de história do Brasil, da Idade Média, mas sim da possibilidade de leitura de livros da área de cada um, por exemplo, hoje é possível encontrar livros sobre a história do desenvolvimento da matemática, economia, esportes, direito, medicina e até das redes sociais.

Opções não faltam, basta você encontrar aquilo que lhe agrada mais. Além dessa leitura, acrescentaria as leituras de ficção, mas principalmente àquelas que abordam, com teor crítico, o contexto em que foram produzidas.

Este processo de aumento de leitura e da qualidade dela, é algo que já pode ser implantado, como em parte está, mas seus frutos serão colhidos apenas mais a frente. Não escrevi muito sobre a importância da leitura, pois acredito que os leitores deste texto já estão plenamente informados sobre isso.

Enfim, é imprescindível que as crianças já comecem a tomar contato com a possibilidade da leitura desde pequenas, corroborado com a ação dos “pais leitores” e que os investimentos não caíam, mas sim aumentem para que possamos ser um país de bons leitores.

Livro de Mario Vargas Llosa traz nas entrelinhas a questão da responsabilidade do intelectual

Após anunciar recentemente a doação de sua biblioteca pessoal com mais de 30 mil títulos para a cidade de Arequipa (Peru), lugar onde nasceu, Mario Vargas Llosa, que completou 76 anos no dia 28 de Março, terá mais um livro lançado neste mês de abril: “La Civilización del Espetáculo” (A Civilização do Espetáculo). O livro foi publicado pela editora espanhola Alfaguata.

O ensaio traz a denuncia do risco de desaparecimento da cultura em nossos dias e do fazer jornalístico, que para o autor é um jornalismo de espetáculo, embora não negue a existência de um jornalismo sério.

Para isso, Vargas Llosa faz uma descrição objetiva e profunda sobre o mundo atual dos males que afetam a sociedade. Segundo o site EUROPA PRESS, o escritor ressalta a crescente banalização da arte e da literatura, o grande êxito do sensacionalismo na imprensa e a inconstância e futilidade da política.

A respeito de estarmos em uma cultura ou civilização do espetáculo, Vargas Llosa disse a coluna de Ricardo Setti, da revista Veja, que

“A impressão que tenho é que não é apenas uma dimensão, mas todo o conjunto da vida em sociedade que está afetada por isso que poderíamos chamar a frivolização, a banalização. A cultura procura hoje, mesmo que não o deixe explícito, sobretudo divertir, entreter. E tradicionalmente não era essa a função da cultura. A cultura tentava responder às grandes perguntas: que fazemos neste mundo? Temos um destino ou não? Somos realmente livres ou somos seres movidos por forças que não controlamos? Toda essa problemática, que era à qual a cultura procurava dar resposta, praticamente se extinguiu hoje em dia, desapareceu”.

Além disso, “o prêmio Nobel de 2010” critica a falta de ação dos intelectuais, principalmente os literatos, que já não acreditam que a Literatura seja uma chave de denúncia e de discussão para intentar soluções, ainda que não as atinja, para os problemas de seu tempo.

“Fazem literatura e aceitam que a literatura tenha um papel modesto dentro da vida da sociedade. E creio que isso também se reflete na pouca ambição exibida por boa parte da literatura de nosso tempo. (…) os escritores de hoje, em grande parte, não escrevem para a eternidade, para sobreviver à morte. Contentam-se com que a literatura cumpra uma função mais ou menos imediata, e seja uma literatura de consumo, no sentido mais explícito da palavra.”

E é justamente baseado no parágrafo anterior que o título deste texto faz sentido. Vargas Llosa, como um escritor e intelectual que já nos anos de 1950 e 1960 abordava os problemas da sociedade peruana e da América Latina em seus romances ficcionais, abomina a “fuga da luta”, se assim posso dizer, dos escritores atuais.

O próprio autor reconhece que nasceu para a literatura numa época em que o não engajamento, o descomprometimento, eram inconcebíveis. Ainda em entrevista a Veja a respeito dos escritores de seu tempo, diz:

“Defendia determinados pontos de vista, criticava outros, mas desta maneira contribuía de algum modo para a vida cívica, a vida social de seu tempo. Essa é uma atitude que hoje parece completamente obsoleta. Os escritores mais jovens não pensam que essa deva ser a função de um escritor.”

O livro em si, não está centrado nesse debate dos intelectuais, mas todos os temas abordados nos levam a essa intensa reflexão sobre o papel do escritor, se é preciso um engajamento político-social ou não.

Logicamente quem busca informações sobre a cultura, política, poder e o jornalismo atual aos olhos de Mario Vargas Llosa, terá subsídios importantes, mas deixar esse questionamento dos intelectuais seria desperdiçar o esforço de uma vida toda de um escritor que assumiu as responsabilidades de contribuir e argüir de alguma forma sobre os temas e problemas presentes em sua sociedade.

Inferno de Dante?

Até hoje é comum encontrar pessoas que tenham uma ideia de inferno baseada na primeira parte do poema A Divina Comédia, com o nome não menos surpreendente de Inferno, do escritor florentino Dante Alighieri e nunca se deu conta disso.

O motivo para isso não é tão difícil de entender e está centrado em questões como a difusão das informações da obra ao longo dos séculos, com pequenas distorções, como sempre acontece e pela falta de interesse da grande maioria das pessoas ao receber uma informação como verdade, sem buscar a sua origem e se questionar sobre ela.

A obra máxima de Dante, que viveu entre 1265 e 1321, é divida em três partes, Inferno, como já citado, Purgatório e Paraíso. Foram escritas em períodos diferentes entre os anos de 1304 e 1321. Com um caráter épico e teleológico a obra nos revela muito do pensamento medieval sobre a ideia tanto da constituição de céu e inferno, como de suas respectivas localizações, conforme a imagem abaixo:

Basicamente, o livro é um poema de caráter narrativo que conta uma viagem ou odisseia do personagem principal, Dante através do Inferno, Purgatório e Paraíso, guiado pelo poeta romano Virgílio, nas duas primeiras partes e por Beatriz, na etapa do céu, revelando-nos detalhadamente a constituição e características desses lugares.

Segundo Andrade e Costa a obra contém traços mitológicos de civilizações antigas que fizeram parte das reformulações de corpo de conceitos praticados pela Igreja, na busca de mais fiéis. “O conceito de inferno cristão é associado ao mundo dos mortos da civilização grega, também conhecido como Hades, mais propriamente a parte denominada Tártaro.”

Portanto é importante levar em consideração que conceito de inferno trabalhado pelo cristianismo, principalmente entre os séculos XI e XIII, fazia parte do cotidiano de Dante. Conceito este, retratado como um lugar repleto de demônios, almas perdidas pelos mais diversos motivos, onde há sempre muita violência punitiva e fogo ardente.

Com suaves alterações, sem desconsiderar os conteúdos bíblicos, essa ideia permanece atualmente no imaginário popular, religioso ou não. É comum dizer que pessoas não batizadas, pagãs, gananciosos, luxuriosos, violentos, traidores vão para o inferno e todos esses indivíduos estão presentes na obra de Dante em seus respectivos círculos (locais) no inferno. Logicamente, todo o ensinamento presente na bíblia contribui para essas imagens, mas algumas características “dantescas” de locais e personagens são facilmente encontradas.

Mas o foco aqui é alertar para a quantidade de história, estórias, ideias e pensamentos presentes em nosso tempo, difundidos pela literatura ou linguagem oral, de muitos séculos atrás e que raramente nos perguntamos: “de onde veio isso?“; “Por que é dessa forma que pensamos determinada coisa?“. Passamos a aceitar informações e perdemos a oportunidade, neste caso, de adentrar no mundo dos livros e aprender, se divertir e refletir.

A discussão sobre as influências que a imagem de inferno sofreu, por livros, pela bíblia, obras teológicos, etc., é uma discussão longa e não é essa a intenção. Mas sim tentar aguçar um pouquinho nossa parte questionadora e curiosa que nos levará, indubitavelmente, para a prática da leitura e em um mergulho na história. E essas duas ações, unidas, contribuem para nosso desenvolvimento enquanto homens e cidadãos na intenção de construir um mundo melhor.

Ditos populares através da história, na Idade Média

Em artigo anterior, publicado aqui mesmo em dezembro de 2010, foram apresentados dois ditados populares que surgiram na cidade de Roma. Dando continuidade a essa série, este texto visa identificar e explicar alguns ditos que apareceram pela primeira vez na Idade Média.

Por diversos motivos e principalmente para facilitar os estudos e pesquisas divide-se o tempo histórico em períodos. A Idade Medieval é delimitada por acontecimentos políticos, costumeiramente seu início é datado no século V, no ano de 476 d.C., quando há o desmantelamento do Império Romano do Ocidente. Já o fim desse período se dá no século XV, em 1453 d.C., com a queda de Constantinopla.

É difícil imaginar que um santo tenha inspirado a criação de um dito popular, mas foi o caso da expressão “tirar o pai da forca”. Atualmente se usa esse ditado para alguém que está com muita pressa, sua origem é do século XIII na Itália.

Fernando Martinho de Bulhões, que após uma vida santa e de milagres, veio a ser beatificado pela Igreja como Santo Antônio, por volta de 1229, durante uma pregação, teria visto seu pai prestes a ser executado em Lisboa, ao colocar a mão sobre os olhos teria se transportado para Portugal onde conseguiu salvar seu pai.

Outro dito popular que surgiu na Idade Média e esteve relacionado com a Igreja Católica foi a expressão “culpa no cartório”. O Tribunal da Santa Inquisição, que era utilizado para averiguar e julgar crimes como a heresia, feitiçaria, bigamia, sodomia, apostasia, no período medieval, por volta do século XIII na Europa, manteve cartórios em locais onde os suspeitos de heresia (seguir uma doutrina ou praticar atos contrários à Verdade revelada e pregada por Jesus Cristo) eram chamados para prestar depoimento e serem julgados.

Como hoje, esses tribunais armazenavam um histórico de todos os julgados e passar por esse cartório já representava, naquela época, uma mancha na sociedade que dificilmente o cidadão conseguiria se livrar. Como a Inquisição tinha forte presença na Espanha a expressão surgiu lá como “culpa en el notario”, em português “culpa no cartório”.

Por fim, é muito comum mandarmos alguém que está nos perturbando ir “tomar banho”. Essa expressão tem um sentido muito negativo, de repulsa. Sua origem provável está na idéia vinculada à virtude, ao pecado, à higiene, já que os crimes cometidos em nossa sociedade são tidos como sujeiras. Assim, na Idade Média o ato de se lavar era muito importante no sentido da purificação.

Em 1399, o rei Henrique IV criou a Ordem do Banho. O que parece ser engraçado era, na verdade, muito sério e virtuoso. Essa ordem, que era constituída no período por cavaleiros, existe ainda hoje com algumas alterações nos rituais e seus integrantes atuais tomam banho durante a cerimônia em que recebem o título. A água simboliza a purificação espiritual e os escolhidos são chamados de Cavaleiros do Banho.

Em uma próxima oportunidade entenderemos melhor a origem e os significados de ditos populares e expressões que surgiram na Idade Contemporânea, iniciada em 1789 e que “dura” até os dias de hoje. Compreenderemos também o por quê desta data marcar o início do período contemporâneo e identificaremos o contexto que envolve a criação dos ditos populares dessa época.

A questão da temporalidade da obra engajada

Sabemos da grande importância dos romances, ensaios, textos em geral, engajados. Principalmente o primeiro gênero citado anteriormente, pela questão da estética realista, seria o suporte ideal de uma representação engajada de nossas realidades e da História. Além do que, o romance também dá maior liberdade ao escritor, logicamente, sem deixar os cânones literários de lado.

A literatura engajada nos possibilita enxergar um compromisso de seus escritores com seu tempo e com as problemáticas de suas respectivas sociedades, visando debater e fornecer soluções para os grandes problemas. Deste modo, podemos entender a literatura como mais uma valiosa ferramenta, dentre tantas outras, para as grandes discussões de nosso tempo.

No entanto, intelectuais, literatos ou não, constantemente criticam a questão da temporalidade das obras engajadas. Ou seja, se elas contribuem diretamente com a sua sociedade e seu tempo, estaria seu “efeito” sobre os leitores restrito a um curto espaço de tempo?

Se analisarmos a perspectiva apresenta por Benoît Denis em seu livro “Literatura e Engajamento: de Pascal a Sartre”, a literatura engajada está sentenciada a uma obsolescência rápida (quando um livro deixa de nos ser útil).

A atualidade, o tempo que passa e o mundo em constante mudança limitam de alguma forma a vida útil dessa literatura, em que os escritores escolheram ligar-se estreitamente à temporalidade, aos acontecimentos de suas sociedade. O escritor engajado, na análise de Denis, recusa-se a escrever para a posteridade.

Nesta concepção, o escritor engajado acaba renunciando a apostar nos seus leitores futuros e decidi responder às exigências do tempo presente. Impreterivelmente, assume uma espécie de sacrifício da glória que poderia receber postumamente. É algo inerente ao seu engajamento, ressaltando a sua vontade de responder claramente ao seu mundo e de participar dos debates que agitam sua realidade.

No entanto, é preciso pensar o engajamento como o ponto onde se ligam o individual e o coletivo, onde o escritor traduz em atos e para seus leitores, presentes ou futuros, uma escolha feira em determinado contexto (escolha tanto literária, quanto de opinião em um determinado debate), transformando as palavras em atos — parafraseando Sartre.

A validade desta ação permanece ad aeternum, principalmente se pensarmos que os grandes debates são revisitados constantemente ou se prolongam ao longo das décadas.

Creio, de um ponto de vista prático, que determinado texto engajado, produzido em seu tempo, revela serventia para os problemas daquele exato momento e, nesse sentido, compreendo a posição dos acadêmicos que pensam na condenação da literatura a sua atualidade.

Mas em um sentido histórico, essa obra engajada é alvos de pesquisas, como importantes fontes de análise de um determinado tema ou período em que foram produzidos, fomentando novos debates em nossas sociedades. Portanto, continuam a manter a intenção primordial de seus escritores e, de forma alguma, perdem seu valor histórico.

Un subconsciente escrutado: Jaime Collyer

Nascido em Santiago, no ano de 1955, o chileno Jaime Collyer não é um escritor que se encontra todos os dias nas esquinas ao redor do mundo. É difícil tentar analisá-lo em poucas linhas e buscar respostas para o tipo de escrita desenvolvido pelo literato.

Se fosse possível estabelecer três palavras-chaves para demarcar a literatura desenvolvida por ele, poderíamos elencar sexo, psicologia e pressão (moral, política, etc.).

Escrevendo desde muito cedo, enquanto ainda estava no colégio, graças aos famosos talleres literários descobriu que, definitivamente, o fazer literário era algo que lhe dava prazer. Entretanto, outra área lhe chamava a atenção: a psicologia. E foi esta a sua primeira profissão. Formou-se psicólogo no ano de 1980 na Universidad de Chile, mudando-se em seguida para Madrid, onde permaneceu até 1990.

Enquanto desenvolvia seus contos e romances, Collyer seguiu se graduando, diplomando-se em Relações Internacionais e Ciências Políticas e obteve o título de mestre em Sociologia do Desenvolvimento. Seu primeiro livro publicado foi a história infantil Hacia el Nuevo Mundo, juntamente com Patricia Fernández.

No entanto, a obra que demarcou o escritor como um grande da Nueva narrativa chilena de los noventa foi seu romance El infiltrado, de 1989, que lhe rendeu o prêmio internacional Grinzane Cavour, mais de duas décadas depois, como o romance latino-americano traduzido para o francês no ano de 2001.

Outros grandes romances de sucesso do escritor foram Cien pájaros volando, de 1995, El habitante del cielo, de 2002, e La fidelidad presunta de las partes, de 2009. Também obteve sucesso em contos como La bestia en casa, de 1998, Cuentos privados, de 2002, e La voz del amo, de 2005. E o ensaio Pecar como Dios manda, historia sexual de los chilenos, de 2010.

Collyer tem como marca registrada em suas temáticas adentrar no mais profundo dos seres humanos, colher os seus anseios e desejos mais íntimos, tentando esmiuçar o cataclismo gerado entre os pensamentos, o prazer e as ações.

Embora seja difícil generalizar, seus personagens — principalmente aqueles de enredos estabelecidos no século XX — encontram barreiras que lhes geram vazios existências, por diferentes motivos, ainda que, em boa parte delas, a culpa recaia sobre as pressões exercidas pela sociedade.

Essas coerções, intimidações, imposições mergulham em aspectos morais e, em muitos casos envolvem questões relacionadas à sexualidade dos personagens de seu livro ou, ao menos, dubiedades no subconsciente que envolvem outras temáticas que não a sexual, mas que geram grande sentimento de culpa, desespero ou incertezas.

A maquinaria repressiva da ditadura militar também é representada em alguns livros, mas ela nem sempre parece ganhar grande destaque. Em determinadas tramas, as relações sociais se deterioram sozinhas, por culpa ou erros individuais não ligados diretamente às manobras ditatoriais. Embora, seja possível fazer uma análise mais ampla em que a ditadura possa ser comparada ao ar, ninguém vê, mas está ali, alimentando as vidas.

Acima de tudo, é possível enxergar que as grandes problemáticas estão relacionadas à transgressão às regras — ainda que de forma anêmica — estabelecidas pela sociedade, comunidade ou, a falta de adaptação a elas por algum motivo abrupto.

Como viver sob as pressões e violência que estão diluídas na busca pelo dinheiro, prestígio, fidelidade, masculinidade, machismo, etc. O que tanto chama a atenção em seus livros, é na verdade, o depois: o que fazer quando as transgressões e os rompimentos das regras acontecem inesperadamente?

Como seguir em frente, repensar tudo o que se fez até o derradeiro momento e o que se fará para o futuro? Os finais são abertos, de definitivo, apenas a reflexão sobre as tramas.