Nunca li Paolo Guerrero. Ah, do futebol? Pensei que estávamos falando de literatura!

Desde o final do ano passado não é raro ler artigos em jornais e site peruanos, alguns até de grandes intelectuais, discutindo a substituição de Vargas Llosa pelo jogador de futebol Paolo Guerrero, como a maior figura peruana de representação mundial.

Não se trata aqui de abrir um debate e julgar que estão substituindo um literato por um jogador de futebol. Isso envolve questões culturais, apelo de mídia, paixão popular e, até certo ponto, o alcance das obras literárias, se estas conseguem atingir ou não todos os grupos sociais, pelo preço dos livros, interesse pela literatura, se há fomento desta nas escolas, etc.

No entanto, o que pode parecer um assunto sem sentido, nos revela alguns pontos interessantes para uma discussão que pode ser ampliada na busca de uma tentativa de compreensão sobre traços e características sociais.

Quando Vargas Llosa recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2010 na Suécia, muitos telões estavam espalhados pela capital, Lima, para acompanhar a cerimônia de entrega. Grandes lojas transmitiam em suas vitrines o evento. Vargas Llosa era de certa forma o orgulho nacional.

De certa forma, porque é evidente que os grupos de esquerda no país não se identificam de maneira alguma com o escritor e dizem, em alto e bom tom, que este não representa o Peru em nenhum aspecto e é um traidor.

Mas essa rusga é antiga, desde quando Vargas Llosa rompeu com a esquerda devido à falta de liberdade propiciada pelo regime cubano, juntamente pelo apoio de Cuba a Rússia na invasão da Tchecoslováquia em 1968 e o caso Padilla, do qual já falamos em outra oportunidade.

Em dezembro de 2012, muitos telões espalhados pela cidade limenha. A tradicional Calle de las Pizzas estava tomada por pessoas que paravam para assistir Paolo Guerrero se tornando campeão mundial de futebol do Torneio Interclubes da FIFA. Foi recebido com gigantesca festa no aeroporto, quando esteve em férias no país. Todos queriam tocar Guerrero.

Antes mesmo do título, em outubro do mesmo ano, quando visitei o Peru, era comum os taxistas de Lima, ao saber minha nacionalidade, dizer que o jogador da moda era Paolo Guerrero. Mas nessa época, ainda era fácil encontrar comentários sobre Vargas Llosa.

Nas feirinhas de artesanato, no hotel, nos centros de lojas, quando me perguntavam o motivo da visita ao Peru e dizia sobre a minha pesquisa, muitos comentavam: “é um autor muito conhecido mundialmente por seus romances“. Embora eu tivesse a impressão de que nem todos tiveram a oportunidade de ler seus livros.

Em uma ocasião recente — Hay Festival, evento literário em Cartagena, Índia — quando questionado pela Gazeta Esportiva.net, o Nobel da Literatura falou sobre o tema:

“Nunca li Pablo Guerrero. Ah, do futebol? Pensei que estávamos falando de literatura… Paolo Guerrero é um grande jogador de futebol, mas vivemos em uma época justamente da civilização do espetáculo. Os grandes esportistas se converteram nos heróis que no passado eram os grandes pensadores, os escritores, os grandes teólogos, os grandes pastores.

Hoje em dia, não, são os futebolistas. Gosto muito de futebol, mas digamos que não podemos colocar na mesma categoria o futebol e a literatura. Cada um tem um espaço, e nesse espaço você pode os admirar muito, mas não os confundir. Essa falta de discriminação é o que resulta na degradação e na perversão da cultura do nosso tempo.”

Vargas Llosa é um fã assumido de futebol. Torcedor do Universitário de Lima e fã do Real Madrid, por sua ligação com a Espanha, admirou grandes jogadores peruanos das décadas de 1950 e 1960. O clube peruanolhe rendeu homenagem, após o Nobel.

No ano de 2011, foi ovacionado por mais de 60 mil torcedores do Universitário em pleno Estádio Nacional de Lima após receber o título de “sócio honorário”. O Real Madrid também já o homenageou. Foi convidado a dar o pontapé inicial da partida entre o time merengue e o Valência.

É algo comum, os norte-americanos idolatram seus campeões. Nós, brasileiros, também idolatramos e o mesmo acontece com todos os outros países. Mas, Vargas Llosa quer alertar também para não nos prendermos em idolatrias, comemorações por campeonatos esportivos e nos esquecermos de todo o resto, principalmente porque o futebol já foi e ainda é muito usado para esconder os problemas sociais, políticos e econômicos.

Quando fala em civilização do espetáculo, título de um dos seus mais recentes livros, o escritor nos atenta que o mundo passou a se preocupar muito mais com o “espetáculo”, com o divertimento, com aquilo que dá audiência, que vende muito; deixando de lado a reflexão, a opinião, a contestação. Responsabiliza a mídia, mas também a nós.

O que, talvez, o escritor queira ressaltar, é a importância da literatura como veículo de alerta para as mazelas da sociedade, corrupção, falta de liberdade, desigualdade social, racismo, etc.

E a importância que lhe deveria ser atribuída, principalmente, aproximá-la de todas as pessoas, independente de suas rendas, raça e formação acadêmica. Não é propriamente uma crítica ou julgamento ao povo peruano que idolatra seus ídolos esportivos, ao invés de idolatrar intelectuais. Longe disso…

“Os que sabem fazer gols e maravilhas no campo de futebol são pessoas a quem se deve admirar, sem nenhuma dúvida, mas não se pode admirá-los da mesma maneira de que admiramos um grande filósofo, um grande pensador, que enriquecem extraordinariamente a cultura do mundo, algo que tem uma grande importância na vida de uma sociedade. Um senhor que sabe meter gols maravilhosamente não é isso.”

O romance político se perdeu?

Alguns romances latino-americanos ganharam notoriedade, principalmente entre os anos de 1940 e fins de 1970, por seu caráter político e abordagem de temas-problemas da sociedade em que viviam, como a corrupção, desigualdade social, racismo, autoritarismo, criminalidade, entre tantos outros.

Escritores realistas buscaram energia de suas experiências negativas e de variadas formas representaram toda a problemática de suas sociedades, partindo das dificuldades vivenciadas e em busca de soluções ou, ao menos, de levar o leitor, o cidadão a refletir um pouco sobre o desajustado mundo ao seu redor. Até mesmo escritores do chamado Realismo Mágico, conseguiram tanger a superfície do político-social em suas obras.

Há quem diga que esse tipo de literatura já morreu há algumas décadas, há quem diga que já não precisamos mais dela e outros que se sentem completamente vazios pela falta dessa abordagem e das reflexões instigadas por ela.

Escritores de nossa região que vivenciaram e participaram do boom latinoamericano, caso de Vargas Llosa, García Márquez, Júlio Cortázar e Carlos Fuentes — estes dois últimos já falecidos — demonstravam em seus textos, narrativas muito atreladas às questões sociais, políticas, morais, cotidianas.

Alguns com um caráter mais urbano, de representação das classes médias, outros um caráter mais afastado dos grandes centros urbanos ou selvático, caracterizando personagens de grupos mais humildes. Mas todos, cada um a sua maneira, nos davam um panorama político-social de sua época através das crenças, condutas, expectativas individuais ou de um grupo, características psicológicas, sociais, étnicas e culturas, além do ambiente político.

Quase todos os escritores desse grupo concordam que a Literatura, os romances, cumpriam uma função muito maior do que apenas servir de entretenimento. Ajudavam a entender as descompensações sociais, estimulavam a compreensão do leitor que algo estava errado, tirando-os da inércia diante de tanto corrupção, pobreza e desigualdade.

Mas o que mudou agora? Nossa sociedade já não precisa mais desse tipo de Literatura? Embora os escritores do boom continuem escrevendo com todo o engajamento que tinham décadas atrás, os novos romancistas se preocupam mais em entreter para ser um sucesso mercadológico, servir mais de autoajuda para os problemas pessoais do que instigar o leitor a reagir às questões sociais, econômicas, políticas que englobam o seu país?

Mas antes de jogar o peso sobre os novos escritores, precisamos refletir também o total desinteresse pelas questões políticas em nosso tempo. Cada vez mais vemos pessoas se afastarem das questões políticas, da participação ativa por dizer que a política hoje é um ambiente muito sujo e fazem questão de não se envolver, de não procurarem entender um pouco de economia, políticas sociais, etc.

Ora, para quê então escrever romances políticos se não haverá leitores para eles? É outro ponto para uma reflexão mais clara.

Há algumas respostas mais claras para as indagações do começo do texto. Sim, ainda há romances políticos, mas a maioria são autores que já faziam isso há muito tempo, com raras exceções como o escritor espanhol Javier Cercas. Se ainda precisamos desse tipo de narrativa, se ainda consumiremos esses romances é um ponto chave para o debate.

Não se fez aqui um julgamento de posições, não há como negar o benefício da leitura, mesmo que seja apenas para o entretenimento, mas são questões levantadas para pensar o futuro da Literatura, do romance e quais passos devemos seguir. Não seria melhor ao invés de excluirmos opções, trabalharmos com todas elas? É uma discussão longa, que renderia diversas teses e dissertações e ainda assim não chegaríamos a uma conclusão, mas refletir é preciso.

¿Para qué sirve la literatura?

O título do texto não está em espanhol por acaso. Essa pergunta irritava constantemente Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores latino-americanos, ou melhor, do mundo. A esse questionamento, Borges respondia assim: “Para nada, se você pensar qual é a utilidade do canto de um canário ou o brilho de um pôr do sol!“.

A explicação sobre o ponto de vista de Borges por Mario Vargas Llosa nos ajuda a entender melhor essa resposta. Dizia o peruano que em comparação ao canto dos pássaros ou o espetáculo do sol unindo-se ao horizonte, um poema ou romance não estão ali simplesmente fabricados pela natureza, são uma criação humana.

E justamente por isso é interessante que se indague como e por quem foram criados.

Entender-se-ia assim que nasceram de incertezas na intimidade de uma consciência que os escritores foram moldando através do processo de escrita. Formando uma vida artificial, feita de linguagem e imaginação que coexiste com a realidade, principalmente porque a vida que nós, seres humanos, temos não nos basta, não é capaz de responder a todos nossos desejos e anseios.

Um texto literário só passa a existir quando é adotado por seus leitores e passa a fazer parte da vida social, tornando-se uma experiência compartilhada.

Pois bem, é importante entender então que de nada adiantará escrever um livro, independente do gênero, se ele não for lido e essa experiência não for divida com ninguém. Essa é uma das grandes incógnitas dessa equação que é escrever, seja nos meios acadêmicos ou no mercado editorial.

Se encararmos, assim como muitos escritores encaram a literatura e seus textos, como um alimento do espírito crítico das pessoas e uma ferramenta importante para o questionamento das mais diversas sociedades, se ela não alcançar seus leitores falhará nessa empreitada.

E como alcançar então leitores? Não há uma receita, infelizmente. Mas talvez seja uma combinação de uma boa escrita, apoio dos pares, uma editora que tenha visão e se arrisque, entre tantos outros elementos.

Ser um sucesso de vendas oportuniza alcançar mais pessoas, mas até chegar ao sucesso existem percalços. Exemplos não faltam de literatos com uma escrita perfeita, criatividade, domínio da linguagem e do enredo, que nunca se tornaram importantes no meio comercial ou acadêmico.

Quebrando um pouco o protocolo, desviando um pouco do assunto, confesso que isso tem me desanimado constantemente, porque milhões de pessoas no mundo se dedicam arduamente a escrever seus romances, suas pesquisas; se estressam constantemente com a falta de inspiração diária, com a busca da perfeição que nunca vem e nunca são reconhecidas.

Além disso, a questão dos críticos literários e avaliadores é de tirar o sono, porque sob um determinado ponto de vista sua criação é uma imundice e sob outro, é algo digno. Mas enfim…

Escrever sobre a utilidade da literatura é um assunto vasto, não será aqui o esgotamento do tema. E, além disso, há os pontos sobre qual literatura é boa e qual é ruim, mas não resta duvidas de que ela alimenta a inconformidade e instiga o leitor à busca de mudança, seja uma transformação de sua própria vida, da sociedade, do seu modo de pensar, etc.

Mas se partimos do ponto de vista que a literatura sirva para algo, precisa-se pensar, portanto, as formas para que textos e autores, independente de sua fama, chegue aos leitores. Uma obra humana para humanos!

Se a literatura é por nós, o que será contra?

Quantas vezes já ouvimos que um livro pode mudar o mundo, que a literatura pode modificar o rumo da humanidade e transformar nossas sociedades em algo melhor, renovando-a? Mas quantas vezes o sentimento de que as coisas vão de mal a pior nos toma conta e a literatura parece não fazer diferença nenhuma.

Nem tão ao mar, nem tão a terra. A verdade é: “desde que o mundo é mundo”, antagonismos, como o bem e o mal, convivem. Violência, roubo, exploração, guerra, assassinatos não é uma invenção desse século ou do anterior. Embora, atualmente, a violência tenha aumentado. Porém, outras questões precisam ser pensadas como o aumento gigantesco da população e da marginalização, entre outros.

Existe algum sentido nessa relação explicitada até aqui? Se a literatura pode nos tornar pessoas melhores, questionadoras, mais humanizadas, o que está acontecendo? Ela perdeu o seu poder de transformação?

Colocando os pés no chão e deixando de lado qualquer tipo de previsão apocalíptica, a realidade é que a literatura não controla o mundo e uma vasta gama de outros fatores influenciam nossas sociedades. Estes relacionados às questões culturais, sociais, políticas, econômicas. Todas interligadas, é bem verdade.

A ação imediata da literatura acontece no âmbito individual e isso é extremamente difícil de medir, leva os leitores a pensarem, mas é uma ação no subconsciente. No entanto, na longa duração, somadas as influências individuais, é possível depreender que um livro ou livros de uma teoria tenham incitado um grande grupo de pessoas.

Por exemplo, os livros de Marx até hoje ajudam a questionar nossa sociedade e formar opiniões. Entretanto, as resultantes são diferentes. A cada um é permitido pensar, questionar e agir de alguma forma, mesmo que tenham sido despertados pelo mesmo livro.

Em certa medida, é possível encontrar grupos que ajam conjuntamente inspirados por livros e teorias, mas o fato de existir discussões sobre os temas dessas obras e a institucionalização de um estatuto ou regras revela que, realmente, não são todos que pensam igual.

Aproximações existem. Talvez a influência de uma pessoa leve a coesão, assim como as regras, mas na raiz do pensamento há divergências, assim como na prática desse pensamento, principalmente pelo contexto e nuance culturais diferentes de cada um.

Agora, por que essa longa explicação? Porque, é cada vez mais claro que a literatura não vai agir igualmente em todas as pessoas. Há aqueles que irão ler e não se sentirão incitados a mudar suas atitudes e mudar o mundo; outros que lerão, mas por um motivo ou outro, não se preocuparão com sua sociedade; há os que buscarão apenas o entretenimento com uma boa leitura sem ter a intenção de racionalizar; e, ainda, os “tocados” pelo poder da literatura, agirão de formas diferentes.

Outro ponto importante é a variedade de temas, há livros que incitam a violência (sem querer questionar se há livros e temas errados, há apenas livros) e também se um autor realmente quer que seu livro contribua para alguma coisa ou não. Isso é perfeitamente possível.

E não estou necessariamente falando somente dos livros de auto-ajuda, mas também de livros que abordem temáticas político-sociais em romances, poemas, ensaios, etc.

Por fim, entramos em um outro ponto. Supondo que há muitos livros que possam contribuir para um mundo melhor, de nada vai adiantar se estes livros não forem lidos e seus ideais não forem repassados, mesmo que cada um entenda de uma forma, embora exista uma certa coesão.

Uma pesquisa feita em 2012 — Retratos da Leitura no Brasil — encomendada pela Fundação Pró-Livro e pelo Ibope revelou que o número de leitores no país caiu em quatro anos, 9,1%. Em 2007 a população de leitores era de 95,6 milhões, em 2011 o número caiu para 88,2 milhões. Além disso, os leitores leram em média 1,85 livro nos três meses anteriores à pesquisa.

Portanto, a literatura pode e deve mudar o mundo, mas ela não fará isso sozinha. Inclusive, outros fatores podem impossibilitar que ela realmente venha a ser um agente transformador. Mas, uma coisa é certa, se ela consegue agir individualmente, cabe a cada leitor questionar sua sociedade, seu cotidiano e enxergar o que precisa ser mudado ou não, e agir, ainda que nos pequenos gestos, na busca de algo melhor.

Dessa forma, a literatura, enquanto influencia homens, poderá influenciar também outras áreas (economia, política, social, cultural, já que estão interligadas com a literatura) e pessoas de poder, para uma mudança ainda maior.

Albert Camus: um absurdo

Em 2013, comemora-se o centenário de nascimento de um dos mais importantes intelectuais e escritores da história: Albert Camus. Entre tantos artigos e ensaios, suas obras mais conhecidas são O Estrangeiro, A Peste e O Mito de Sísifo, além de sua peça em quatro atos, Calígula.

Como homem inserido em seu tempo, norteando-nos pelos vetores de integração da cultura política, é imprescindível, para a compreensão do que seriam as obras de Camus, conhecer sua vida e os lugares por onde passou.

Primeiramente, esses vetores, segundo Serge Berstein, para ficarmos em uma forma mais simples de explicação, são segmentos como a família, escola, universidade, exército, partidos políticos, que transmitem normas, referenciais, valores que se entrelaçam e constituem a formação do indivíduo ao longo de sua vida.

Camus nasceu na Argélia, mais precisamente em Mondovi. Lá encarou muito de perto problemas como a fome, doenças, guerras e o clima, já conhecido dessas regiões. Na primeira Guerra Mundial, seu pai faleceu em campo de batalha e ao longo do período em que viveu na Argélia conviveu com massacres, preconceitos e pobreza.

Tuberculoso, passou a encarar, como ele mesmo deixava explícito, a presença da morte em seu cotidiano e a mesma doença o impediu de praticar futebol, esporte que ele tanto gostava.

Quando esteve no Brasil, Camus aproveitou para assistir a um jogo de futebol e se espantou pela tamanha paixão dos brasileiros para com o esporte. Leitor de Nietzsche, Camus era anarquista, deixou o Partido Comunista por divergências e negava sempre o rótulo de existencialista.

A maioria dos elementos apresentados acima está presente em seus escritos. Por exemplo, mudou-se da Argélia por problemas com as autoridades nacionais por escrever artigos criticando os tratamentos e ações violentas que eram implementadas contra os árabes em seu país.

Em O Estrangeiro, Camus descreve as vicissitudes de um indivíduo que não consegue expressar seus sentimentos, vivendo a separação entre a razão, o sentimento e a emoção, conduzindo suas reações durante a vida sem uma razão.

Já com o ensaio literário O Mito de Sísifo, com uma análise mais filosófica sobre a condição humana, o escritor admite a futilidade e insignificância dos seres humanos perante o cosmos, e a falsa crença, de certa forma, de que sua ação poderia mudar o mundo.

O pensamento de Camus é vasto e riquíssimo para ser trabalhado apenas em um pequeno texto, mas vale ressaltar por fim, que Camus elaborou uma reflexão sobre a condição humana. Rechaçando a fórmula de um ato de fé em Deus, na história ou em uma razão. Opôs-se ao cristianismo, ao marxismo e ao existencialismo. Não deixou de lutar contra as ideologias e as abstrações que distanciavam o homem do humano.

A sua Filosofia do absurdo, ou, absurdismo foi um de seus legados, dentre tantos outros, que abordava os esforços realizados pelo ser humano para encontrar um significado absoluto dentro do contexto da vida em sociedade. Mas essa busca fracassa, pela inexistência de tal significado, caracterizando-se assim por seu ceticismo em torno dos princípios universais da existência.

Camus defendia que o significado da existência é a criação de um sentido bem particular, principalmente porque a vida é insignificante por si mesma. No entanto, essa falta de um significado maior da vida humana é, na verdade, um motivo de alegria e não de desolação, pois, então, cada indivíduo é livre para moldar sua vida, construindo o seu próprio futuro.

Escritor engajado, mas muito crítico dessa concepção e do alcance e validade (no sentido temporal) das obras engajadas, Camus preocupou-se e contribuiu muito para o pensamento da vida e, de certa forma, para a organização e constituição das sociedades.

Além disso, foi um profundo defensor dos valores como a justiça e a liberdade. Faleceu em 1960 devido a um acidente de carro, em uma viagem que faria de trem, aceitou a carona por insistência dos amigos. Foi, também, grande amigo de Sartre, pelo menos até 1952, mas essa já é outra história, para o próximo artigo.

Um pouco sobre a verdade das mentiras — Vargas Llosa

A importância dos romances para se compreender uma época é sempre discutida. Muitos acreditam na viabilidade do uso das ficções como fonte de um determinado período, embora alguns ainda insistam em refutar essa ideia.

Na verdade, o ponto inicial são os tipos de romance, como sempre discutimos nos textos desta coluna. Obras realistas, engajadas, que trabalhem com temas políticos, sociais e culturais são extremamente úteis e enriquecedoras para a compreensão de uma sociedade. Esses romances não são confeccionados simplesmente para contar histórias da vida, mas sim para transformá-las, como bem diz Vargas Llosa.

Ainda assim, esses romances são ficção e como tal, há mentiras nas verdades do enredo. Pode-se pensar nos textos ficcionais como uma espécie de simulacro da vida real, mas que reflete a existência e as questões de nosso mundo, por exemplo, contextos como crises políticas e sociais, ditaduras, etc.

Por ser uma trama, os romances tem um início e fim, por mais que se formem trilogias. Esses textos nos fornecem uma perspectiva que a vida verdadeira que vivemos cotidianamente, nem sempre nos pode fornecer ou até nos nega. Através da ficção podemos nos atentar e refletir sobre questões importantes que nos atingem. Essa mentira pode nos ajudar a entender o real que está ao nosso redor.

Na perspectiva vargasllosiana a recomposição do passado nas obras literária é quase sempre falaz, mas ressalto o sentido de ardilosa (astúcia) e não somente de enganadora. É fato que a verdade literária é uma e a verdade histórica é outra.

No entanto, ainda que esteja abarrotada de mentiras a literatura nos fornece uma história que a História (de nós historiadores), não pode fornecer e não tem meios para isso, pensando em seus métodos enquanto ciência.

A verdade literária é um complemento do real. As verdades subjetivas da literatura tornam possível resgatar uma pequena parte da nossa memória, da nossa história. A verdade história é primordial para que lembremos sempre do que fomos e somos.

Já a verdade da literatura pode nos revelar o que quisemos ser e não pudemos; a forma de que poderíamos ter agido, mas não fizemos. Portanto, essa história secreta só a literatura pode constituir, pode nos contar.

Talvez aí resida o fascínio humano pelas ficções mais realistas (àquelas histórias que podemos enxergar muito bem quando saímos à rua, quando visitamos um determinado local), poder viver aquilo que não vivemos, não tivemos coragem ou oportunidade, ou simplesmente “espiar” através das páginas a vida de alguém que colocou em prática tudo aquilo que pudemos.

Assim, a literatura torna-se um questionamento do mundo, é sediciosa, insubmissa e revoltada. Nela vivemos um mundo, não muito longe do nosso, mas em que há a possibilidade de transgredir as leis (e não estou falando do aspecto jurídico) que regem a vida cotidiana. Possibilita-nos, ainda que apenas no instante da leitura, nos libertar do espaço-tempo real.

Por fim, não resta dúvida nenhuma,que a “irrealidade” criada pela literatura, “irrealidade” porque ele bebe da fonte do real,juntamente com as mentiras astuciosas,é um importante meio para conhecermos as verdades penetrantes (e também mentirosas, porque o mundo real está cheio de mentiras) do nosso mundo.

As verdades reveladas pela literatura nem sempre são encantadoras, denunciando uma face perversa dos atos humanos, mas nem por isso falsa.

Vargas Llosa x García Márquez, briga literária?

Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez são dois importantes escritores latino-americanos, mundialmente conhecidos e vencedores do prêmio Nobel de literatura. Surgiram e estiveram imersos no boom literário latino-americano na década de 1960, quando se tornaram grandes amigos.

Houve um tempo em que os escritores deste mesmo grupo, dos quais podemos acrescentar ainda Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Carlos Fuentes e Alejo Carpentier, formaram a chamada família do boom. Reuniam-se para beber, fala dar vida, discutir literatura e política, tamanha a conexão que mantinham.

Vargas Llosa e García Márquez se admiravam, ambos escreviam um sobre o outro de forma crítica, mas muito respeitosa, produzindo grandes textos como o ensaio, primeiramente apresentado como tese doutoral, do escritor peruano sobre as obras de seu amigo colombiano em 1971: García Márquez: historia de un deicidio.

Gabriel tornou-se padrinho do segundo filho de Vargas Llosa. Além disso, o contexto político na América Latina e suas respectivas ideologias os uniam. Estavam do mesmo lado, “lutando pela esquerda”. Socialistas, apoiaram a Revolução Cubana de 1959 e estabeleceram uma grande amizade com Fidel Castro.

No entanto, em 12 de fevereiro de 1976, em uma noite de avant-premiere de um filme no México, García Márquez foi cumprimentar o grande amigo de braços abertos, mas Vargas Llosa não hesitou em desferir um golpe de direita que deixou o colombiano praticamente nocauteado. Acabava ali a amizade.

Os dois nunca mais falaram do assunto. Mas antes de entrar no verdadeiro motivo, é importante salientar que os amigos já não eram tão unidos assim. Em 1971, Vargas Llosa rompeu com a esquerda alegando que o regime já não garantia a liberdade tão necessária para o desenvolvimento da democracia.

O estopim foi o Caso Padilla (1971), quando o escritor cubano Heberto Padilla foi preso por denunciar as mazelas do regime cubano e, sob pressão, foi obrigado se desmentir.

Vargas Llosa e outros escritores elaboraram um manifesto direcionado a Fidel Castro. O governante acabou proibindo os escritores latino-americanos que viviam na Europa de adentrarem em Cuba. Anos antes, o escritor já havia criticado o apoio de Cuba à invasão russa à Tchecoslováquia.

No entanto, o motivo principal que ninguém se dispôs a esclarecer de forma escancarada, volta-se para questões de relacionamento conjugal, ou, neste caso, extraconjugal. Muitos veículos ousaram dizer que o motivo foi o ciúme de Vargas Llosa.

Naquele momento, o casamento do escritor peruano não andava bem. Isso é verdade. Embora nunca tenha sido confirmado, diz-se que Vargas Llosa manteve um affair com uma aeromoça, supostamente de um país nórdico, afastando-se de sua esposa Patrícia Llosa.

Em meio a essa situação, García Márquez, como amigo da família, prestou apoio à esposa de Vargas Llosa, aconselhando-a. Isso é verdade. O que não se confirma é que o escritor colombiano rompeu a barreira dos conselhos e “avançou o sinal”.

Independente do real motivo, o que se tem de concreto foi a separação de dois grandes escritores que, embora não tenham se falado mais, nem comentado sobre o tema, não deixaram de comentar em entrevistas e debates literários sobre os trabalhos e ideias um do outro. Por fim, restou-nos todo o precioso material gerado pelos dois escritores. Quem não perdeu com essa briga foi a Literatura.

Ensaio literário e a intervenção na América Hispânica

Não é novidade nenhuma que a literatura pode contribuir imensamente para o debate das questões de grande importância para o presente e futuro das sociedades nas áreas como a cultura, economia, política e social.

Na América Latina, principalmente na primeira metade do século XX, muitos literatos foram convocados para as discussões intelectuais, intervindo diretamente em suas comunidades através de obras engajadas, propondo soluções para os problemas pelos quais enfrentavam conjuntamente.

Ainda que muitos gêneros literários tenham participado das contendas sociais, o ensaio, principalmente na América Hispânica, ganhou destaque e respeito da intelectualidade e sociedade civil como uma porta para proposição de soluções e elucidações, diferentemente do Brasil, onde até hoje este gênero é visto com maus olhos pelo meio acadêmico, acusado de não conter um rigor científico e de não propiciar uma colaboração efetiva.

Embora tenhamos figuras importantes como Manuel Bonfim, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, etc.

Historicamente o gênero foi “inaugurado” pelo importante escritor uruguaio José Henrique Rodó, com o ensaio Ariel, em 1900. Seu texto era voltado diretamente aos jovens das nações hispano-americanas, recomendando uma cultura de los sentimientos estéticos frente ao perigoso utilitarismo e nordomanía.

Ao longo da obra Rodó usou personagens de William Shakespeare, do livro A Tempestade, são eles: Calibán, Próspero e Ariel. Ressaltando que no período de emancipação das nações latino-americanas, iniciando-se por volta de 1810, alguns ensaios incipientes já circulavam pela região.

Muitas são as definições para o ensaio, inclusive algumas subdivisões como ensaio literário, acadêmico, periódico. Especificamente sobre o literário, tem um caráter dialogante com seu leitor e volta-se totalmente para a realidade presente.

Dentro da perspectiva da literatura engajada, que nos interessa aqui, Benoît Denis indica que o ensaio não tem a intensão de alcançar um cientificismo, é marcado por uma retórica do eu subjetivo, explorando a vivência do escritor enquanto sujeito social.

Apenas para conhecimento, outros importantes escritores que fizeram uso do ensaio na América Hispânica foram Andrés Bello, Domingo Faustino Sarmiento, José Martí, Octavio Paz, Ángel Rama e José Carlos Mariátegui. Já na geração do boom, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, José Donoso, José Lezama Lima, Jorge Amado, Augusto Roa Bastos e Mario Vargas Llosa.

Dentro do panorama apresentado em muitos dos textos da sessão Literatura e História, sobre a importância da literatura para além do entretenimento, o ensaio é mais um importante instrumento, dentre tantos outros, para o entendimento das sociedades e seus acontecimentos nas nações da América Latina, contribuindo para a reflexão e formação de opinião dos leitores, colaborando para a construção dos indivíduos enquanto cidadãos.

Entre Sartre e Simone de Beauvoir

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir são figuras ímpares. O pensamento de ambos marcou o século XX de tal forma que, para compreendê-lo a partir de uma perspectiva multidisciplinar, é imprescindível conhecer os textos dessas duas grandes figuras intelectuais, tanto por suas obras literárias e filosóficas, quanto por suas histórias de vida. Ambos conseguiram ser premiados com o Nobel de Literatura.

Os dois escritores se conheceram em 1928 na Universidade de Paris, quando Sartre se preparava pela segunda vez para tentar ingressar no mestrado em Filosofia. Simone era namorada de seu amigo René Maheu. Em 1929, o casal, ainda não unido, conseguiu aprovação para iniciar os estudos de pós-graduação.

O tempo passou e tornaram-se muito próximos. Havia muito mais do que literatura e filosofia naquela relação. Simone revisava e debatia os textos que Sartre escrevia. Este lia, relia e opinava sobres os textos de sua parceira.

A sintonia do casal era escancarada, tanto nas questões intelectuais, quanto amorosa e sexuais. Há quem os demarque como existencialistas, mas Sartre não concordava muito com essa possibilidade.

As cartas trocadas revelavam seus pontos de vista filosóficos e literários, aventuras amorosas, conteúdos repletos de sensualidade, revelando-nos assim um relacionamento excêntrico. Nunca se casaram, mas viveram uma conexão muito forte e respeito mútuo dentro de suas concepções. Sim, eram uma casal, mas não nos moldes tradicionais.

Não havia mentira ali. Ambos eram livres para ter relações com outras pessoas e ambos comunicavam isso. A união não os impedia de se relacionar amorosamente com outros, mas era preciso comunicar. Aliás, era comum o casal viajar com seus respectivos amantes.

Outro laço de união era a questão do engajamento. Ambos faziam uso de seus textos literários como oportunidades para alertar seus leitores para as mazelas de sua sociedade: injustiças, preconceitos, violência. Posicionaram-se à esquerda quando a Segunda Guerra Mundial acabou e a Guerra Fria se iniciou.

Empreitaram-se na fundação da conhecida revista Le Temps Modernes e no jornal libertário Libértacion. E jamais deixaram de defender a liberdade, segundo as suas concepções, embora nem sempre partissem de um mesmo ponto e chegassem a conclusões diferentes.

Talvez a obra que mais presente os anos de união seja A cerimônia do adeus, obra publicada por Simone de Beauvoir, depois da morte de Sartre. Nele, a escritora conta os últimos anos de Sartre, baseados em conversas com amigos, em um diário da própria autora e entrevista com o escritor.

O tom do texto é de admiração e de um sentimento de vazio. Beauvoir relata a importância de Sartre para a humanidade, escreve sobre o seu cotidiano, das coisas mais simples às complexas.

Conta-nos também o fim do intelectual, como foi perdendo sua vitalidade, morrendo pouco a pouco. Por fim, comenta sobre o episódio de seu funeral, que atraiu mais de 50 mil pessoas em 19 de abril de 1980. Encerrava-se ali mais de 50 anos de relação.

A morte de Sartre foi um duro golpe, muito contam até hoje que a escritora tentou se deitar em baixo dos lençóis, ao lado do corpo do escritor no hospital. Restou a ela escrever:

“Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo.”

Em 14 de abril de 1986, Simone de Beauvoir faleceu devido a uma pneumonia em Paris, com 78 anos de idade. Foi sepultada no mesmo túmulo de Jean-Paul Sartre no Cemitério de Montparnasse, na mesma cidade.

Do casal, restou-nos, e ainda bem, seus pensamentos, textos filosóficos, romances, entrevistas, ensaios, e uma história de vida. Elementos que resistiram à virada do século e alimentam nossas mentes até hoje.

Escritores engajados x presidentes nervosos: Vargas Llosa e Evo Morales

Não há prova maior da importância dos intelectuais da literatura para a vida política dos países quando encontramos as seguintes manchetes: “Evo Morales diz que Vargas Llosa irá a Bolívia para criticar seu governo” e “Evo Morales, nervioso por la visita de Vargas Llosa a Bolivia”. Por que deveria um presidente de um país, tamanho o seu posto, se preocupar tanto com um simples escritor que visitará sua nação?

Tudo começou com o anúncio de que Mario Vargas Llosa, entre os dias 22 e 28 de janeiro deste ano, fará uma visita à Bolívia para realizar conferências. Visitará também Santa Cruz e as missões jesuítas.

Em discurso para alguns petroleiros, Evo disse: “Tenho informação de que nos próximos dias chegará Vargas Llosa a Santa Cruz, como sempre para falar contra Evo, contra nós, contra o governo, contra a Bolívia“.

O escritor peruano visita o país a pedido da Fundación Nueva Democracia e se reunirá com o governador de Santa Cruz, o opositor Rubén Costas, que provavelmente será candidato nas próximas eleições presidenciais contra Evo.

Vargas Llosa constantemente critica o governo boliviano por suas ações autoritárias e antidemocráticas. Como bem costuma dizer, países como a Bolívia, Venezuela, Nicarágua são semidemocracias infectadas de populismo e autoritarismo. Mas todos sabem que o abandono do socialismo e o comunismo pelo escritor é o que ainda incomoda a esquerda latino-americana.

O peruano sempre defendeu que os escritores devem se engajar através da literatura e participar dos grandes debates de sua sociedade. No entanto, quando os governos não asseguram a liberdade para que os literatos se expressem e implementam ações ferrenhas, é quase impossível existir engajamento.

Sem liberdade e democracia, uma literatura que possa ser utilizada para algo a mais do que simplesmente entreter, fica impossibilitada de agir com maior eficácia. Em algumas ditaduras, como as da América Latina no século XX, através das ficções, romances, ensaios, foi possível passar pela barreira militar e alertar os leitores para as mazelas das sociedades.

Mas há países em que a perseguição aos escritores se torna maçante e nem mesmo os romances conseguem romper o bloqueio da censura. Com o mundo globalizado e a internet, ficou mais fácil que os literatos se manifestem sobre a política, a economia, os problemas sociais, ainda que estejam em exílio.

A verdade é que desde o aparecimento da literatura como um campo autônomo em 1850 e o desenvolvimento dos intelectuais desde o caso Dreyfus, os literatos alicerçaram passo a passo, através de seus romances, poemas ou simples pensamentos a possibilidade de suas opiniões serem consideradas pela mídia, governos ou cidadãos.

É de extrema importância que escritor engajado atue na sociedade, usando seu prestígio como escritor para interver nos problemas sociais.

Além de a literatura proporcionar excelentes livros, que nos ajudam a compreender momentos importantes da nossa história, ela colabora também para que intelectuais responsáveis para com suas sociedades e com suas nações consigam espaço para se comunicar, oferecendo soluções para os nossos problemas ou contribuindo no debate intelectual na tentativa de solver nossas mazelas.